“O corvo”, o “Blackbird, o “Assum-preto” e a “Velha roupa colorida”

11/07/2026

Kleyton Bandeira Cantor, compositor e pesquisador cultural

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural

Escutando uma canção de Belchior essa semana me aconteceu algo muito estranho. Fui reportado, mais especificamente sacudido, por várias camadas existenciais como que submetido a portais no tempo e no espaço.

A música era “Velha Roupa Colorida”, os anos eram 1945, 1950, 1968 e 1976, os lugares eram os Boston, Iguatu, Liverpool e Sobral. Vou tentar explicar como foi esse processo de transmutação.

Em “Velha Roupa Colorida”, Belchior nos convoca (não é um convite) a um ato de coragem; fala da necessidade de abandonar aquilo que aprisiona a consciência e impede a liberdade. Sua advertência permanece atual: “o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

Não por acaso, a canção dialoga com símbolos que atravessam a literatura e a música universal. E foi na seguinte estrofe “como Poe, poeta louco americano, eu pergunto ao passarinho Black Bird, assum-preto, o que se faz”, que fui abduzido.

O corvo de Edgar Allan Poe, figura gótica que aparece no conto The Raven, escrito em 1846, ao ser indagado várias vezes pelo narrador que sofria a perda de sua amada Lenora, responde apenas “Nunca mais”. Seu “Nevermore” é a sentença definitiva contra o retorno do passado. O narrador insiste em buscar respostas, em reviver o que perdeu, mas a ave permanece inflexível: é preciso avançar e certas épocas não podem ser recuperadas, certas dores não devem ser revisitadas.

O Blackbird* (1968), de Paul McCartney e John Lennon, nasce em outro cenário. Não é o pássaro do luto, mas da esperança. Com as asas quebradas pela injustiça racial, ele é convidado a aprender a voar (Take these broken wings and learn to fly). A liberdade, li, não é um presente; é uma conquista. O voo representa a emancipação daqueles que durante tanto tempo foram impedidos de erguer a própria voz (You were only waiting for this moment to arise).

Já o “Assum-preto” (1950), de Luiz Gonzaga e do iguatuense Humberto Teixeira, canta porque sofreu. Cego pela crueldade humana, transforma a dor em beleza. Seu canto não celebra o sofrimento; denuncia-o. É a arte resistindo quando lhe tentam arrancar a visão e, com isso, a autonomia, a liberdade.

Belchior reúne, de forma quase despercebida, essas três camadas. Seu pássaro não está preso à tristeza do corvo, nem apenas à esperança do Blackbird, nem exclusivamente à resistência do assum-preto. Seu pássaro deseja romper o ciclo. Ele sabe que permanecer preso ao passado é aceitar a gaiola.

Quando “Velha Roupa Colorida” foi lançada, em 1976, o Brasil ainda vivia sob as garras do mal, eram tempos sombrios da ditadura militar. Enquanto parte da geração dos anos 1970 parecia resignada, acomodada ou descrente da possibilidade de mudança, Belchior recusava a passividade. Sua canção era um chamamento para abandonar velhas certezas, romper com o conformismo e compreender que uma transformação histórica se aproximava. A liberdade exigia coragem para deixar para trás aquilo que já não servia.

É nesse ponto que a genialidade de Belchior se revela em toda a sua profundidade. Sem recorrer a discursos panfletários, ele constrói uma filosofia da liberdade. A mudança política torna-se também uma mudança existencial. O novo não nasce enquanto insistimos em vestir a velha roupa.

O corvo adverte que o olhar é adiante e que o passado não volta. O Blackbird ensina que é possível aprender a voar, mesmo com a suas asas quebradas. O assum-preto prova que até a dor pode transformar-se em canto e que podemos enxergar o amor com os olhos do coração. Belchior reúne essas vozes para afirmar que nenhuma liberdade floresce onde há acomodação.

Belchior, em toda a plenitude de sua obra, nos lembra que a história não deve ser repetida como nostalgia, especialmente quando a nostalgia romantiza a ausência de liberdade. Há passados que precisam ser conhecidos, mas jamais revividos.

E, ao final, permanece a pergunta: como Poe, poeta louco americano, eu pergunto ao passarinho Black Bird, assum-preto, o que se faz. Talvez todos respondam de maneira diferente. Mas Belchior parece oferecer a síntese mais luminosa: despir-se da velha roupa colorida, recusar as amarras do ontem e seguir adiante, porque a liberdade não mora na repetição do passado, mas na coragem de construir o futuro.

Bom fim de semana e até a próxima!

 

*A canção foi inspirada pelo movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, especialmente pela luta das mulheres negras contra a segregação racial no sul do país durante a década de 1960.

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