O homem da floresta – parte II – final

27/06/2026

 

Resumo: Após viver isolado por quinze anos em uma cabana no coração da floresta, Eduardo mantém em segredo o motivo de seu afastamento da sociedade. Sua rotina solitária é interrompida quando Alberto, um caçador amador perdido na mata, é resgatado por ele. Durante semanas, os dois desenvolvem uma forte amizade, até que Alberto finalmente pergunta o que levou Eduardo a abandonar o mundo. Diante da pergunta, o velho suspira e se prepara para revelar o segredo que guardou por tantos anos.

— Talvez esteja na hora de alguém saber.

Alberto esperou.

— Eu tinha uma filha.

A voz saiu baixa.

— O nome dela era Helena.

Eduardo levantou-se, abriu uma gaveta e retirou uma fotografia antiga. Nela havia uma menina sorridente de cerca de dez anos.

— Ela era tudo para mim.

Seus olhos se encheram de lágrimas.

— Minha esposa morreu cedo. Eu a criei sozinho.

O silêncio tomou conta da cabana.

— Quando Helena tinha dezesseis anos, fomos viajar para a cidade. Um motorista bêbado atravessou o sinal…— Ela morreu na hora.

Alberto não disse nada.

— Depois disso, o mundo perdeu a cor. As pessoas continuavam vivendo, sorrindo, fazendo planos… mas eu não conseguia entender como. Tudo me lembrava dela. Cada rua. Cada praça. Cada esquina.

Eduardo apertou a fotografia contra o peito.

— Então fugi.

Lágrimas escorreram por seu rosto.

— Não porque odiava as pessoas. Eu apenas não suportava a dor.

Alberto sentiu um nó na garganta. Pela primeira vez compreendeu o peso que aquele homem carregara sozinho durante tantos anos. Nos meses seguintes, a amizade entre ambos tornou-se ainda mais forte. Alberto passou a visitar Eduardo regularmente. Levava mantimentos, livros e histórias da cidade. E, pouco a pouco, Eduardo voltou a sorrir. Parecia que finalmente encontrara alguém capaz de compreender seu silêncio.

Mas o destino ainda guardava uma última surpresa. Numa manhã de primavera, Eduardo não apareceu para tomar café. Alberto estranhou. Entrou no quarto e o encontrou deitado serenamente. Parecia estar dormindo. Mas não estava. Eduardo havia partido durante a noite. Sobre a mesa havia uma carta. Com mãos trêmulas, Alberto a abriu.

“Meu amigo,

Se está lendo isto, significa que minha jornada terminou. Você me salvou mais do que imagina. Quando me encontrou, acreditava que eu vivia. Mas a verdade é que apenas existia. Foi sua amizade que me trouxe de volta. Há algo que nunca lhe contei. No dia em que o encontrei desacordado na floresta, reconheci seu rosto imediatamente. Você era apenas uma criança quando aconteceu o acidente.

Era o filho do motorista que matou minha Helena. Descobri isso anos depois. Quando o vi ali, entre a vida e a morte, tive a oportunidade de alimentar meu ódio. Poderia ter ido embora. Poderia ter deixado a floresta decidir seu destino. Mas naquele instante percebi que a culpa não era sua. E, pela primeira vez em quinze anos, escolhi perdoar. Ao salvá-lo, salvei a mim mesmo. Obrigado por me devolver a paz.

Seu amigo, Eduardo.”

Alberto deixou a carta cair. As lágrimas vieram sem controle. Seu pai havia morrido anos antes, carregando a culpa daquele acidente. E agora ele compreendia algo que jamais imaginara. A amizade que mudara sua vida nascera justamente da maior tragédia da vida de Eduardo. Naquela tarde, Alberto enterrou o amigo ao lado do riacho que ele tanto amava. Depois permaneceu sentado ali por horas.

O vento balançava as árvores. A água corria suavemente entre as pedras. E, pela primeira vez, Alberto entendeu que o perdão não muda o passado. Mas pode libertar o futuro. A floresta permaneceu silenciosa. Porém, naquele silêncio, Eduardo finalmente encontrara aquilo que buscara durante toda a vida: paz.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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