O homem Otávio e o gato Aurélio

16/08/2025

Naquela manhã fria, Otávio acordou antes do sol. Não foi o despertador, nem o barulho da rua — foi o peso suave e morno de Aurélio, seu gato, deitado sobre o peito. Os olhos verdes do felino o encaravam com a calma de quem sabe mais do que diz.

Otávio, ainda meio sonolento, acariciou-lhe a cabeça e, de súbito, uma ideia lhe ocorreu: escrever uma ode ao seu companheiro silencioso. Pegou o caderno, afastou Aurélio com delicadeza e começou:

“Ó criatura de passos de veludo,

Que domaste o homem, fingindo ter sido domado.

Tuas garras, herança dos campos egípcios,

Onde outrora foste deus,

Guardião das colheitas e dos sonhos.”

Enquanto escrevia, Otávio lembrava-se da história que tanto o fascinava: milhares de anos atrás, no Egito Antigo, homens e gatos selaram um pacto silencioso — eles protegeriam os grãos dos ratos, e em troca receberiam alimento, abrigo e, quem sabe, veneração. Aurélio, ao espreguiçar-se sobre a mesa, parecia confirmar cada palavra.

“Trazes em ti a memória de Bastet,

A deusa que sorri por detrás de teus olhos semicerrados.

E também carregas o mistério sombrio,

O mesmo que fez Poe escrever

Sobre aquele gato negro,

Testemunha muda de uma mente à beira do abismo.”

Otávio olhou para Aurélio e, por um instante, imaginou-o no conto de Allan Poe — espreitando no escuro, observando com atenção quase sobrenatural, talvez conhecendo segredos que nenhum humano deveria saber.

“Mas tu, Aurélio,

Não és presságio de tragédia,

E sim farol de silêncio e paz.

Odeio admitir, mas és tu que me domesticas,

Fazendo-me abrir portas, janelas e latas,

Sempre ao teu comando invisível.”

Ao terminar, Otávio fechou o caderno. Aurélio, como se soubesse que havia sido eternizado em versos, pulou no colo do homem e ronronou. Era um ronronar profundo, quase antigo, que parecia trazer ecos das primeiras fogueiras acesas pelo homem, quando o gato já estava ali — silencioso, observador, e, talvez, no fundo, governando tudo.

E assim, naquela manhã, Otávio não apenas escreveu sobre o seu gato. Ele escreveu sobre todos os gatos que vieram antes dele, e sobre todos os homens que, sem perceber, foram conquistados por um par de olhos felinos.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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