O Inferno de Dante

21/09/2019

Se a esquerda, entre nós, nutrisse contra os ricos o mesmo ódio que esses devotam a Lula, práticas terroristas já teriam tomado conta do país.

É lamentável o que se tem visto e ouvido nas redes sociais, nos restaurantes, nas ruas, por parte de uma elite perversa que exulta em face da supressão de direitos e conquistas das classes trabalhadoras, e do que, sem provas, se tem feito contra Lula a fim de anular qualquer possibilidade de reação ao fascismo implantado no Brasil com o golpe de 2016.

Na livraria, ao meu lado, enquanto folheio a última edição da Divina Comédia, de Dante Alighieri, é-me inevitável ouvir a declaração de uma senhora dirigindo-se a uma amiga: – “Tanta gente boa morre de câncer e esse homem [Lula] teve câncer e não morre!”

A frase lapidar, que só encontra páreo na sua própria burrice, a um só tempo envergonha e indigna, pois, infelizmente, traduz o que pensa a elite brasileira, a mesma que enche as igrejas nas manhãs de domingo e se arvora cristã pelo simples fato de dar esmolas.

A imoralidade da condenação pública de um homem inocente, a exemplo do que afirma Susana de Castro em artigo notável sobre Hannah Arendt, levou a filosofia a distanciar-se dos homens e voltar-se para a contemplação do cosmos, da natureza, das ideias… O que se vê, hoje, no país, aponta, curiosamente, para o outro lado: constitui um convite à desobediência civil.

De índole pacífica, a esquerda brasileira propunha para o caos em que foi colocado o país reformas consentidas, pelo caminho democrático do voto nas eleições deste ano, isto é, pelo direito sagrado de escolher o povo o seu presidente.

Ao impedir Lula de ser candidato, numa prova mal disfarçada de estar a serviço dos interesses do grande empresariado, o Judiciário brasileiro tirou dos olhos a venda com que, historicamente, procurou simbolizar sua imparcialidade. Piscou três vezes: duas, para simplesmente limpar a visão, uma vez para o olhar atento da elite, como a lhe dizer: está consumado o ato espúrio. Tiramos o homem do combate.

Simples assim, como fazem sorrateiramente os amantes pouco antes de cometer a traição.

Em tempo: Da Divina Comédia, na livraria, relia eu o fragmento do Inferno em que Dante depara com a cena hedionda em que queimam os iracundos e os rancorosos, que ignoram as forças do bem e da verdade, esmagados sob o peso da hipocrisia, do ódio e da prática desavergonhada da perseguição.

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Lembrar para jamais esquecer
Lembrar para jamais esquecer

    Vez e outra, vejo na rede social posts do secretário de Cultura de Iguatu, Honório Barbosa, com informações importantes sobre ruas, logradouros, prédios públicos e coisas e tais, iniciativas que visam a resgatar a memória perdida de nossa cidade. Faz...

Encontro de velhos amigos
Encontro de velhos amigos

      Dia desses, entre surpreso e indignado, precisei dos trabalhos de uma advogada, que nem sempre saem ao gosto do leitor as coisas que escrevo aqui. É que homens públicos, afeitos às conveniências e aos elogios fáceis, o mais das vezes insinceros e...

As Boas Mulheres da China
As Boas Mulheres da China

    Vejo no jornal estatística atualizada da violência contra a mulher no Brasil. São números assustadores. Há coisa de uns muitos anos, uma amiga de Piracicaba recomendou que eu lesse “As Boas Mulheres da China”, da jornalista Xinran. Passado tanto tempo,...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *