O menino – parte I

11/10/2025

 

 

‘‘Tome sua sopa, meu filho, que logo ficará bem’’, disse a mãe enquanto acomodava melhor o filho melhor na cama. As feridas oriundas da grande surra ainda o incomodavam bastante. Apanhara de três alunos da escola, sem motivo algum a não ser só por ele ser ele. Ela saiu do quarto.

— Haroldo, precisamos fazer alguma coisa pelo nosso filho! Essa perseguição precisar ter um fim, agora!

— Mas eu já falei com a diretora, Ângela, o que mais você quer que eu faça? Que eu vá lá e agrida nas crianças que bateram no nosso menino? Isso faz parte da vida! São crianças! Também eu apanhei quando jovem, e isso, se for observar bem, até fez de mim um forte sobrevivente na vida! — Haroldo falava, mas não estava bem certo se acreditava no que dizia à mulher.

— Nosso filho está acamado, e isso é algo sério. Se preciso for, eu mesma bato naqueles delinquentes juvenis! Se o nosso filho morrer, eles irão junto! — Disse, nervosa, a mãe do menino! — Eu quero a felicidade do nosso filho, e me dói vê-lo sofrendo e acamado!

O menino, do quarto, ouvia tudo enquanto lia após ter terminado de tomar a sua sopa. Estava com cicatrizes por todo o corpo e alma. Era uma criança já desfigurada pelas desventuras inerentes da vida estudantil. Não tinha amigos ou namorada, nem mesmo um ‘‘ficante’’. Era magro, pálido e sem brilho no olhar. Era um corpo onde não aparentava haver vida. Rastejava pelos dias.

O menino lia, no livro, uma história onde uma criança fazia amizade com um gnomo que só era possível ser visto por ela. Juntos, viviam aventuras solitárias em uma floresta europeia. O menino viajava nessa história. Sentia-se parte do enredo, inserido ao grupo, como um terceiro membro secreto. Ali, não havia surra, indiferença, exclusão, opressão, perseguição, preconceito… só paz e satisfação!

Após aprofundar o sono naquela noite, o menino achou-se em meio a um nevoeiro em um ambiente frio e bucólico. Estava só. Nem seus espancadores nem seu gnomo e companheiro estavam ali. Via apenas lápides enlodadas, cruzes velhas esculpidas nas pedras e fotos antigas por todo lugar. Estranhamente, o menino sentia-se em paz naquele ambiente. Não sabia se sonhava ou estava acordado, apenas sentia a paz proveniente daquele campo-santo

De repente, uma senhora aproximou-se. Tinha cabelos alvos e vestido igualmente branco. Cheirava a alguma espécie de flor, mas o menino não saberia dizer qual. Tinha olhos claros e pele morena. Apesar da delicadeza do espectro, sua presença era imponente. Trazia ares de candura e autoridade.

— Quando você era menorzinho, filhinho, eu já havia percebido que tipo de menino serias. És um espírito superior; e toda grande alma, sofre […]

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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