O reduto dos últimos

18/04/2025

 

‘‘A leitura de todos os bons livros é uma conversação com as mais honestas pessoas dos séculos passados.’’ –  René Descartes

Em um mundo idiotizado e idiotizante, poucos são os lugares aos quais possam ser considerados dignos de se fazer presente. A nossa contemporaneidade é feita de e para o supérfluo. Dificilmente encontra-se alguma conversa que ofereça algo para além da superficialidade. A cultura é inculta. São tempos inúteis.

Os bares, que antes cultivavam a boemia dos homens valorosos das décadas passadas, hoje, oferecem apenas frequentadores ‘‘problematizadores’’ e ‘‘desconstrutores’’, envergonhados (vejam só) por serem homens – mesmo não os sendo, na realidade. E patética pseudiontelectualidade desses ‘‘meninEs’’, oferecem estultícias de toda sorte.

Traumatizados e ansiosos por nada, essas criaturas amaldiçoam e patrulham tudo em nome do ressentimento banal criado por eles mesmos quando negam a realidade em nome de um ideal criado na oficina vazia de suas cabeças ocas. Admirável mundo novo que possui gente (coisa) assim.

Definitivamente, o mundo lá fora já não é um lugar sadio para quem tem brio e não tem saco para esse lamaçal de baboseiras vomitadas gratuitamente por esses seres. Há ainda um reduto, meu caro. Há sempre um recanto onde os remanescentes dos velhos tempos possam se refugiar, se proteger das medonhas companhias.

E este reduto é a solidão livresca. Sim, a solidão necessária em momento de contemplação da própria companhia e da dos verdadeiros bons livros! O livro certo é a chave para a fuga da ignorância, e o caminho para a libertação da doutrinação passada, presente e futura!

Tenho por certo de que tais momentos engrandecem o homem. É no trabalho diletante solitário da leitura que se forma uma mente saudável e consciente das ações que incidem sobre o indivíduo e o coletivo, e, nisso, tendo tal consciência, foge-se, invariavelmente, da alienação e da vida primaria animalesca a qual fomos jogados desde a nossa concepção.

Este é, portanto, prezado leitor, o meu reduto. O reduto dos últimos, dos remanescentes da velha geração de homens desprovidos da aprovação ou aceitação dessa medonha geração de frágeis criaturas. Criaturas ávidas por homogeneizar, padronizar a todos no seu ideário doentio.

Venha para o reduto dos últimos, amigo leitor! Ou melhor: crie o seu próprio solitário reduto caseiro. Estarás a salvo!

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

 

MAIS Notícias
O 1° turno: o Brasil virou à Direita
O 1° turno: o Brasil virou à Direita

Para começar, amigo leitor, intento não colocar dados e informações matemáticas em demasia; apenas o básico, para, assim, não tornar esta crônica enfadonha. Serei o mais direto e objetivo possível. Vamos lá! Primeiramente, preclaro leitor, ante o resultado desse...

O caso Lourival – final
O caso Lourival – final

  Foi então que ouvi um ruído vindo dos fundos do bar. Como passos. Lentos. Arrastados. Leonardo ficou pálido. — Não deveria ter vindo hoje. — Quem? Ele não respondeu. Os passos pararam. Durante alguns segundos, nada aconteceu. Então ouvimos três batidas na porta...

A urna, o amanhã e a escolha da Liberdade
A urna, o amanhã e a escolha da Liberdade

    Existe no caminhar em direção à seção eleitoral no domingo um silêncio peculiar. Não importa o barulho do trânsito ou a movimentação nas calçadas; quando chegamos à porta do colégio onde votamos, o país inteiro parece prender a respiração por um...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *