O Silêncio Retumbante de João Gomes

17/10/2026

 

 

Kleyton Bandeira Cantor, compositor e pesquisador cultural

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural

Há silêncios que, de tão ensurdecedores, acabam provocando perguntas incômodas. É o caso do cantor pernambucano João Gomes, cuja trajetória meteórica o transformou, não apenas em um dos grandes nomes da música brasileira, como também em um dos maiores representantes do povo nordestino na contemporaneidade. Mas que, quando o assunto é política, parece preferir a discrição — ou, para muitos de nós, nordestinos, a omissão.

Não se trata de exigir que um artista seja militante, vista a camisa de determinado partido ou transforme seus shows em palanques eleitorais. Trata-se de reconhecer que a cultura também é política, que a fama carrega responsabilidades e que o silêncio de quem alcança milhões de pessoas pode, sim, despertar questionamentos legítimos.

O curioso é que João Gomes já protagonizou um episódio que, indiretamente, alimentou esse debate. Em Petrolina, Pernambuco, houve relatos de restrições à entrada de pessoas em seu show por estarem usando adesivos do candidato Lula. Se confirmada essa circunstância, não estamos diante de uma simples ausência de posicionamento, mas de um episódio que merece explicações.

João Gomes é filho do interior pernambucano. Sua história carrega as marcas de uma região que, apesar das desigualdades históricas, insiste em produzir talentos, inteligência e arte. Teve também a oportunidade de estudar no Instituto Federal de Pernambuco, instituição que integra uma rede fortalecida pela Lei nº 11.892, de 29 de dezembro de 2008, sancionada durante o segundo governo do presidente Lula, que instituiu a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica.

É importante lembrar disso porque os Institutos Federais representam uma política pública de expansão do acesso à educação, especialmente relevante para jovens do interior do país. Não significa que João Gomes tenha qualquer obrigação de apoiar o presidente que sancionou a lei. Significa apenas que sua trajetória se desenvolveu em um Brasil no qual políticas públicas de educação podem abrir portas que, antes, pareciam distantes.

Hoje, o cantor desfruta de uma fama extraordinária e participa de campanhas publicitárias de grandes marcas, como Coca-Cola, Banco do Brasil, 99Food e Café Santa Clara, entre outras. O mercado publicitário, naturalmente, busca audiência, alcance e retorno financeiro. E sabemos que o mercado tem seus interesses, suas conveniências e seu lado político.

Segundo uma publicação de sua esposa, o silêncio do cantor estaria relacionado ao medo do cancelamento. Se essa é, de fato, a razão, estamos diante de uma contradição interessante: em uma sociedade que tanto reivindica a liberdade de expressão, até que ponto o receio de perder popularidade tem condicionado aquilo que as pessoas estão dispostas a dizer?

Convém, porém, estabelecer uma distinção: João Gomes é livre para falar ou permanecer calado. Pode manifestar suas preferências políticas, pode não declarar voto, pode celebrar contratos com as maiores empresas do país e pode continuar enriquecendo com o próprio talento. Não há nada de ilegítimo nisso.

Mas nós também somos livres. Livres para questionar, para discordar e, sobretudo, para escolher os nossos ídolos.

E é justamente aí que faço minhas escolhas.

Prefiro continuar admirando Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Geraldo Azevedo, Belchior e tantos outros artistas que, em diferentes momentos da história brasileira, fizeram de sua arte também um instrumento de contestação. Gente que conheceu a censura, enfrentou a perseguição política, sofreu com a prisão, a tortura e o exílio. Gente que, em tempos sombrios, não tratou a própria consciência como mercadoria a ser preservada a qualquer custo.

Não significa que todo artista tenha de seguir o mesmo caminho. Cada geração enfrenta seus próprios dilemas, e cada pessoa mede os riscos de acordo com a própria realidade. Mas há uma diferença entre respeitar o direito de alguém ao silêncio e deixar de reconhecer o valor de quem escolheu falar quando falar tinha um preço muito mais alto do que perder seguidores ou contratos publicitários.
Aos nordestinos que esperam uma palavra de João Gomes, talvez a maior lição seja esta: não devemos entregar aos nossos ídolos o poder de decidir aquilo que pensamos ou compramos. A admiração não pode nos impedir de questionar, assim como a decepção não precisa nos levar a negar o talento de ninguém.

A música pode atravessar fronteiras, emocionar multidões e transformar desconhecidos em fenômenos nacionais. Mas é a consciência que revela o tamanho de uma pessoa para além dos palcos.

E, no fim das contas, entre a fama, a política, o dinheiro, os contratos e a necessidade de agradar a todos, fico com a liberdade de escolher de que lado quero estar — mesmo quando essa escolha custa alguma coisa, porque, como nos lembra Belchior, em Brincando com a Vida: “Vida, agora eu te conheço, mas, calma, a tudo eu prefiro a minha alma.”

MAIS Notícias
4 formas de educar crianças com eficiência sem precisar gritar
4 formas de educar crianças com eficiência sem precisar gritar

  Educar uma criança não precisa ser uma batalha diária, marcada por gritos, ameaças e desgaste emocional. Especialmente até os seis anos, a criança está desenvolvendo o autocontrole, a compreensão das regras e a capacidade de lidar com as próprias emoções. Nessa...

Rotary entrega área de lazer para iguatuenses
Rotary entrega área de lazer para iguatuenses

    No ano passado nesta coluna de nosso semanário, trouxemos informações referentes a dificuldade de se praticar em nossa cidade, uma das modalidades esportivas preferidas do momento que é a corrida. Com algumas ruas estreitas e trânsito muitas vezes que...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *