O Vela Negra (parte III – final)

09/05/2026

 

 

A prisão foi rápida, quase anticlimática.

O nome do suspeito era Elias Brandão, um homem discreto, de 51 anos, conhecido na cidade apenas como um fornecedor ocasional de insumos para pequenos comércios. Nunca chamara atenção. Nunca levantara suspeitas. Sua casa, modesta e isolada, guardava exatamente o que a perícia esperava encontrar: restos das velas, ferramentas de fabricação e registros fragmentados de compras.

Confessou sem resistência. Disse que tudo fazia parte de um “processo”. Não um ritual místico, como todos imaginavam, mas algo “necessário”. Não deu detalhes. Não explicou as motivações. Limitou-se a afirmar que “a cidade estava sendo purificada”.

A população, embora ainda assustada, sentiu alívio. O Vela Negra havia sido capturado. O pesadelo, enfim, terminara. Ou assim pensaram.

Dois dias após a prisão, o perito Tarcísio revisava sozinho os relatórios no laboratório. Algo o incomodava — não uma evidência concreta, mas uma sensação persistente de incoerência.

Elias Brandão era meticuloso. Cuidadoso. Calculista. Mas havia um erro. Um único erro. Na terceira vítima — Julião de Silveira — o saco na cabeça destoava completamente do padrão. Não era necessário para o crime. Não combinava com o perfil técnico do assassino. Era… teatral demais.

Tarcísio voltou aos laudos. Releu tudo. Comparou horários. E então percebeu. A vela da terceira vítima havia sido acesa após a morte — como nas outras — mas havia um detalhe ignorado: o tempo de queima era diferente. Curto demais. Curto demais para quem fabricava velas para queimar lentamente. Curto demais para Elias.

Naquela mesma noite, um novo corpo foi encontrado. Desta vez, na entrada da cidade. Um homem desconhecido. Estrangulado. Ao lado dele — intacta, ereta, recém-apagada — uma vela negra. A mesma composição. A mesma assinatura. O mesmo padrão perfeito.

O pânico voltou com força redobrada. Elias Brandão estava preso. E, ainda assim…o Vela Negra atacara novamente. Na cela, ao ser informado sobre o novo crime, Elias sorriu pela primeira vez. Um sorriso calmo. Quase aliviado.

— Demorou mais do que eu esperava… — murmurou.

O delegado, confuso, pressionou:

— “Você não agiu sozinho?”

Elias levantou os olhos, encarando-o com serenidade.

— Eu não comecei isso. Silêncio. — E também não terminei.

Dias depois, Tarcísio retornou ao primeiro relatório — o de Aroldo Lamartine. Algo que passara despercebido por todos. Inclusive por ele. Aroldo era frequentador da Capelinha Celestial. Jorge Vieira, apesar de reservado, fazia compras semanais para uma senhora ligada à mesma capela. E Julião… Julião havia sido visto, semanas antes de morrer, discutindo com um homem na porta da capela. O ponto em comum nunca fora as vítimas. Era o lugar.

Na madrugada seguinte, Tarcísio foi até a Capelinha Celestial. Sozinho. O local estava vazio. Ou assim parecia. Ao se aproximar do altar, notou algo atrás da imagem central: restos de cera. Negra. Recente. E então uma voz, calma e baixa, ecoou pelo espaço:

— Você demorou… mas chegou.

Tarcísio virou-se lentamente. Nas sombras, uma figura emergiu. Não havia pressa. Não havia medo. Apenas certeza.

— Elias acreditava que controlava o processo… — disse o homem. — Mas ele era só o início. Tarcísio tentou reagir, mas já era tarde. O fio apertou seu pescoço com precisão cirúrgica. Sem luta. Sem erro. Na manhã seguinte, a cidade acordou em silêncio absoluto. Na porta da capela, mais um corpo. Desta vez, o do perito Tarcísio Alcântara. Ao lado dele…uma vela negra. Acesa. Queimada até a metade. Como nunca antes.

O assassino nunca foi identificado. Elias Brandão permaneceu preso, insistindo que “o verdadeiro trabalho” ainda estava em curso. A capela foi fechada. Mas, de tempos em tempos, moradores relatam ver, ao longe, uma chama negra tremulando na escuridão. Pequena. Constante. Esperando. Porque, ao contrário do que todos pensaram… o Vela Negra nunca foi uma pessoa.

Foi um legado.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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