“Poetas, seresteiros, namorados, correi!/ É chegada a hora de escrever e cantar,/ talvez as derradeiras noites de luar”!
Os versos acima são de Gilberto Gil, e foram extraídos da letra de Lunik 69, que faz referência à ambição do homem norte-americano em relação a outras terras e outros povos, roubando-lhes sua soberania. Eram tempos da chegada do homem à lua, a conquista do espaço simbolizando a força e o poderio, a inexistência mesmo de limites para o projeto imperialista da superpotência.
Não bastasse o fato de que toda grande poesia é atemporal, extrapolando as barreiras cronológicas e espaciais, a canção de Gil tem hoje um significado sintonizador com as aflições que assolam o Brasil às vésperas da mais importante eleição de nossa história: aquela que preservará a independência e a soberania nacional ou, materializando uma tragédia, legitimará, pelo voto da maioria dos eleitores brasileiras, o domínio dos EUA sobre nosso território, nossa vida institucional, nossas riquezas e nossa dignidade como Nação.
Para além de uma concreta e desavergonhada sujeição, no entanto, na linha do que propõe o ultradireitista filho de Jair Bolsonaro*, o presidiário sobre cujos ombros pesam algumas das maiores tragédias já vividas pelos brasileiros (centenas de mortos durante a pandemia, tentativa de golpe e práticas desabridas de absoluto desrespeito aos direitos humanos), estão em jogo programas sociais, a exemplo do Bolsa Família, que tiraram o Brasil do Mapa da Fome; estão em jogo os mais baixos índices de desemprego de nossa história; estão em jogo a constante abertura de novos mercados de exportação e o prestígio nas relações geopolíticas; está em jogo o respeito às diferenças de gênero, raça e credo; está em jogo a preservação do meio ambiente; estão em jogo as liberdades fundamentais, entre tantas outras conquistas dos governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Mais que mais uma eleição, todavia, o que já seria muito na perspectiva do Estado Democrático de Direito, a escolha que faremos nesse domingo representa a revelação do que somos como povo; dos valores pelos quais orientamos nossa vida; o que queremos para nossos filhos, filhas, netos e netas.
Se, para Plínio, O Velho, está no vinho a verdade (“in vino veritas”, dizia ele) numa alusão a que, sob o efeito do álcool o homem expressa seus pensamentos, sentimentos e desejos mais profundos sem o filtro da razão, há circunstâncias na vida em que, nas escolhas que fazemos, a exemplo do que acontecerá nesse 4 de outubro, reside a nossa verdade mais recôndita e inconfessável, o nosso caráter enquanto cidadãos.
Assim como o vinho, na perspectiva da citação latina, o voto revela o homem.
Agora mais que nunca.
*Assumidamente homofóbico, comprovadamente corrupto, traidor dos interesses nacionais mais legítimos, golpista, amigo íntimo de milicianos e torturadores, Flávio Bolsonaro é candidato a presidente da República pelo PL.
Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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