Poeta Chico Alves: primeiro Museu Orgânico Sesc em Iguatu

07/11/2026

Iguatu vai pulsar mais uma vez no ritmo do galope à beira-mar, no verso de improviso e no compasso das violas que choram e cantam as dores e as graças do povo nordestino. A expectativa é para mais uma edição da Mostra Sesc de Violas e Violeiros, que acontece entre os dias 12 e 14 com a realização do Sesc Ceará. Mais do que um evento, o encontro promete ser um santuário para o improviso, unindo mestres da palavra e novos ouvintes em uma celebração que imortaliza a tradição oral e o cordel.

Herdeira do icônico Festival de Violeiros, a Mostra nasceu para honrar o ofício dos poetas da voz e do aço. Este ano, o evento ganha um contorno ainda mais místico e eterno com a inauguração do Museu Orgânico Casa do Poeta Chico Alves, em Iguatu, o primeiro do Sesc na cidade. Os Museus Orgânicos são palcos de memórias afetivas, onde a própria casa e o cotidiano do artista se transformam em patrimônio. Ali, entre as paredes que abrigam acordes e rimas, a história da cantoria nordestina fincará raízes definitivas. “A cantoria faz parte da identidade cultural do nosso povo e carrega saberes que passam de geração em geração”, ressalta Alemberg Quindins, gerente de cultura do Sesc Ceará e idealizador do conceito de museus orgânicos. “Com a Casa do Poeta Chico Alves, Iguatu passa a contar com um lugar dedicado à história desses artistas e à força da poesia popular nordestina.”

A voz que brotou da terra

O grande baluarte desta edição é Francisco Alves Bezerra, o Chico Alves. Natural de Iguatu, ele traz nas mãos os calos da viola e na mente o brilho do repente cultivado há mais de quatro décadas. Influenciado pelo rádio e pelo pai Seu Messias, Chico correu o Brasil, participando de cerca de 180 festivais e deixando sua marca na discografia da música de raiz. Ao transformar sua morada em museu, a Mostra não apenas homenageia sua trajetória, mas garante que o eco de sua poesia continue a reverberar pelas próximas gerações. O poeta Chico Alves foi idealizador do Festival de Violeiros, projeto abraçado desde as primeiras edições pelo Sesc.

Três dias de poesia incandescente

A sinfonia do sertão começa logo cedo na próxima quinta-feira, 12, às 9h, com uma exposição de luthieria e violas repentistas no Hall do Sesc Iguatu — um mergulho na anatomia do instrumento que dá vida aos versos. À noite, a emoção toma conta com a abertura oficial do Museu Orgânico, seguida de uma justa homenagem a Chico Alves e ao lendário Ivanildo Vilanova.

Na sexta-feira, 13, o Teatro Sesc Sabino Antunes da Silva abre as portas às 9h para a palestra “A origem da viola no Brasil”, conduzida pelo pesquisador Wagner Campos. Sob o manto da noite, às 19h30, o renomado instrumentista Roberto Corrêa comanda um recital comentado, desbravando as nuances da viola caipira, de cocho e de buriti em um diálogo íntimo com o público.

O grandioso encerramento acontecerá no dia 14 de novembro, a partir das 8h, no emblemático Abrigo Metálico — espaço que o próprio Chico Alves ajudou a consagrar como reduto cultural em 1999. O amanhecer será brindado com o duelo pacífico de quatro duplas de repentistas de renome regional e nacional, além do lançamento de dois novos folhetos de cordel.

O Prelúdio das Linhas e Acordes

Como a chuva que avisa que vem vindo o inverno, a Pré-Mostra apresentou a poesia pela região no mês de outubro, levando duplas de cantadores a palcos sagrados como o Sítio Oiticica em Acopiara, a Praça da Igreja em São José de Solonópole, além de intervenções no Mercado Público e no próprio Abrigo Metálico de Iguatu.

Sem o peso da competição, a Mostra de Violas e Violeiros se firma como um território de puro afeto e intercâmbio cultural. É o sertão mostrando que sua maior riqueza não se mede em posses, mas na capacidade de traduzir a vida em seis cordas e uma rima perfeitamente metrificada.

 

 

 

MAIS Notícias

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *