Num momento tão delicado da vida nacional, estando o país sob ameaças concretas de trágico retrocesso político e desconstrução do Estado Democrático de Direito, é lamentável que dois grandes nomes da cultura brasileira tenham nos deixado: Aracy do Amaral (14/09) e Zuenir Ventura (22/09).
A primeira, arquiteta, jornalista, professora, curadora e crítica de arte, cuja trajetória intelectual esteve sempre pautada por profunda compreensão dos problemas sociais e humanos dos brasileiros, legou-nos uma obra imprescindível no terreno das artes plásticas modernistas, com destaque para o rigoroso exame da obra de Tarsila do Amaral, sua tia-avó. Sob este aspecto, é importante mencionar aqui um dos livros clássicos sobre a pintora, “Tarsila, sua obra e seu tempo” (2010), considerado com justiça o mais respeitado estudo até hoje publicado sobre um dos ícones da Semana de Arte Moderna de 1922.
O segundo, também jornalista e escritor, foi voz altiva nas lutas contra a ditadura militar (1964-1985), quer como intelectual orgânico, quer como jornalista, notabilizando-se pela produção de alguns dos livros mais importantes sobre o período de trevas pós-1964, de que “1968, o Ano que Não Terminou”, publicado em 1988, é o mais conhecido.
Em termos de jornalismo literário, bem na perspectiva do que fez, nos Estados Unidos, gente da estatura de Gay Talese, o nome de Zuenir Ventura não encontra par entre nós, o que se vê emblematicamente em dois livros considerados clássicos: “Chico Mendes, Crime e Castigo” (2003), inigualável reportagem sobre o ambientalista brutalmente assassinado em 22 de dezembro de 1988, e o não menos relevante, e considerado por muitos seu livro mais importante, “Cidade Partida” (1994), sobre a chacina do Vigário Geral, no Rio de Janeiro, em agosto de 1993.
Durante dez meses, nos fins de semana, o jornalista frequentou a favela que se tornaria famosa pelo inominável assassinato de 21 pessoas por policiais. Durante dez meses, Zuenir percorreu ruas, visitou famílias, sentou-se à mesa de bares e restaurantes com moradores da comunidade, de cuja experiência extraiu a matéria com que teceria uma das mais notáveis reportagens já produzidas no país.
No âmbito do memorialismo, o escritor carioca ainda escreveu livros antológicos, em que ganha visibilidade o esmero no tratamento da linguagem e a elegância na forma de trazer à superfície acontecimentos e pessoas marcantes de sua vida, bem na linha do que faz ao homenagear figuras do grande jornalismo que ajudaram na sua formação, como homem e como profissional. Por este viés, transitando, pois, entre o registro memorialístico e a crônica social de elevado apuro estilístico, Zuenir Ventura deixa um legado relevante, incontornável mesmo, de que o livro “Minha História dos Outros” (2005) é exemplo de maior alcance.
Nele, Zuenir Ventura lança o olhar para os anos iniciais de sua carreira notável, chega à maturidade, dispensando particular atenção a gigantes do jornalismo e cineastas: Nelson Rodrigues, Carlos Lacerda, Carlos Drummond de Andrade, Glauber Rocha, Pedro Nava, Leon Hirszman, Betinho, Rubem Fonseca e os três Antônios que dispensam comentários, Callado, Cândido e Jobim.
Embora idosos (ambos contavam mais de 90 anos) as mortes de Aracy Amaral e Zuenir Ventura abrem um buraco imenso na inteligência contemporânea brasileira. Lamentável.
Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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