Urubu Tá Com Raiva do Boi

14/03/2026

 

 

Kleyton Bandeira Cantor, compositor e pesquisador cultural

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural

Como, na década de 70, o tropicalismo, movimento musical que emergia da Bahia, conquistava no país, os humoristas Chico Anysio e Arnaud Rodrigues decidiram homenagear o movimento o colocando na grade do programa humorístico Chico City.

Senta que lá vem história…

Com o objetivo de satirizar a MPB do momento, em especial Caetano Veloso e os Novos Baianos, conjunto formado pelos músicos Moraes Moreira, Baby do Brasil, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão, Baiano e Paulinho Boca de Profeta, personagens de Chico Anysio e Arnaud Rodrigues, respectivamente, juntamente com o instrumentista Renato Piau, criaram o conjunto Baiano e os Novos Caetanos. O sucesso na TV foi tão grande que o projeto foi levado para os discos.

Com um instrumental rico, com belos arranjos de violões, sanfonas, cavaquinhos, dentre outros instrumentos, suas canções, além de muito humor, trazem bastante engajamento social e político.

Vejamos!

Clássicos como Vô Batê Pá Tu, que denunciava as delações, à base de tortura, no período militar; Urubu Tá Com Raiva do Boi, uma crítica violenta à situação econômica do país e ao “milagre econômico brasileiro”, movimento liderado por Delfin Neto, durante a ditadura militar, responsável por aumentar drasticamente a concentração de renda na mão de poucos e a desigualdade social; e a linda Folia de Reis, fizeram de Baiano e Os Novos Caetanos um nome forte e significativo no samba-rock e na música rural brasileira. Eles foram sucesso nas rádios e programas de TV em todo o Brasil.

Pois bem! Certa vez um amigo me perguntou para que servia a arte e o artista. Eu nada respondi. Calei-me porque, naquele dia, estava cansado de permanecer, dia após dia, tentando explicar o obvio. No entanto, dedico esses próximos parágrafos a esse meu grande amigo.

Em meio à censura e ao clima pesado da ditadura, Baiano e os Novos Caetanos, por meio de suas artes, provaram que o humor também podia ser uma forma sofisticada de crítica. Por trás das caricaturas, dos trocadilhos e do deboche, havia um retrato bastante lúcido do Brasil daquela época — um país que precisava dançar ao som do “Urubu Tá Com Raiva do Boi”, para tentar desvendar suas profundas feridas sociais.

A genialidade do projeto estava justamente nesse equilíbrio raro: rir e fazer pensar ao mesmo tempo. Precisamos dos dois para sobreviver. Se, por um lado, a sátira brincava com os trejeitos tropicalistas e com a estética dos Novos Baianos, por outro revelava, com inteligência e ironia, as contradições políticas e econômicas do país.

Talvez por isso o grupo tenha ultrapassado o limite da piada televisiva e conquistado espaço real na música brasileira. As canções resistiram ao tempo, não apenas pelo humor afiado, mas porque registram, à sua maneira, um capítulo importante da nossa história cultural.

No fim das contas, Baiano e os Novos Caetanos nos lembram de algo essencial: no Brasil, até a sátira pode virar música de qualidade — e, às vezes, é justamente rindo que se dizem as verdades mais difíceis de ouvir.

Enfim, quando alguém se sente incomodado por não compreender bem a arte e os seus criadores, ela já está cumprindo com esmero o seu papel.

Infelizmente, para muitos, e felizmente, para outros tantos, a arte não pede licença!

Bom final de semana!

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