Valorizar as pausas, respeitar o silêncio

08/11/2025

 

 

Anton Tchekhov (1860-1904), mestre do conto moderno e importante dramaturgo russo, confiara a segunda montagem da peça A Gaivota, clássico de sua autoria, a Constantin Stanislavski (1863-1938). Espetáculo pronto, chega para o diretor e reclama: – “O que você fez, o espetáculo vai ficar esticado, muito maior do que o previsto?”, ao que Stanislavski responde: – “Nada, apenas observei as pausas, valorizei o silêncio.”

Que bela lição, não apenas de semiótica teatral. Falo de uma outra lição, que pouca gente aprendeu: observar as pausas, valorizar o silêncio.

Na vida, quase sempre, é assim. A gente não observa as pausas, não valoriza o silêncio. E, no entanto, quanta coisa ruim poderia ser evitado. Quantas feridas abertas a menos, quanto sofrimento…

É que quase nunca percebemos o momento de calar, de ouvir mais o que o outro tem a dizer.

Nos relacionamentos, não raro, acontece de uma palavra desnecessária pôr por terra o que se ergueu com tanto entusiasmo, o que se fez com tanto amor.

Por que disse que beijaria o chão em que eu pisasse, se deveria me matar? diz Nina, personagem da peça de Tchekhov, em cena memorável.

Na ânsia de construir, destruímos. Na vontade de fazer valer a nossa vontade, não observamos as pausas, não valorizamos o silêncio. E o mundo desmorona.

Consta que a primeira montagem de A Gaivota, em 1896, fora um fiasco. De público e de crítica. Uma pena, leve-se em consideração que o texto é maravilhoso, poético, de uma harmonia estética invulgar.

O próprio autor dissera sobre ela: – “[…] uma comédia, três papeis de mulher, seis para homens, quatro atos, uma paisagem (vista para o lago), muitas conversas sobre a literatura, um pouco de ação, um toque de amor.”

Mas o público a repudiara. Não foi capaz de perceber o que havia por trás da cenografia. Não se observaram as pausas, não se valorizara o silêncio.

Mas a vida, assim como esconde, mostra, revela, expõe. O tempo é sábio, e, cedo ou tarde, coloca cada coisa em seu devido lugar. O que desagradava, encanta, seduz, conquista. É observar as pausas, respeitar o silêncio.

Dois anos mais tarde, sob nova direção, A Gaivota marcaria época no teatro universal. Desde então, uma “gaivota” passou a ser o símbolo do Teatro de Arte de Moscou, uma das mais prestigiadas casas de espetáculo do mundo.

Como se explica que uma mesma peça seja um fracasso hoje, um sucesso estrondoso pouco tempo depois?

Simples: Stanislavski, que a dirigiu numa segunda montagem, percebera na obra uma economia de voz, de movimento, uma contenção de gestos, como jamais alguém fizera.

Numa palavra: observou as pausas, valorizou o silêncio.

Na vida, como no teatro, a essência das coisas muitas vezes está nas entrelinhas, num gesto que quase não se percebe, numa palavra que não se diz, nos sinais que nunca vemos…

Nas pequenas coisas da vida estão os mais fortes sentimentos, os maiores significados, as maiores aflições. Todavia, quantas vezes não deixamos de fazer, na vida, como Stanislavski, no teatro?

Não observamos as pausas, não valorizamos o silêncio…

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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