O condenado

03/12/2021

No prédio ao lado, podia-se ouvir vozes sem que se pudesse, com isso, entender sobre o que falavam e sobre quais palavras utilizavam. O Condenado presume que os colóquios seriam sobre a sua sentença.

No prédio de parede mofada pela chuva, o homem sem sorte nada podia fazer que não esperar pela sua hora. Despedir-se do mundo – já que não havia de quem se despedir – era a sua única e final obrigação.

Sem mulher, filhos ou parentes distantes, o homem assassino entretinha-se em fugas morosas lendo dias e noites adentro.  Leu como nunca antes em toda sua vida.  Arrependera-se, com essa experiência, de não ter atentado para esse hábito salutar.

Viu-se em diferentes formas de vida e épocas em cada uma das personagens das literaturas portuguesa, russa e francesa. Os livros lhes eram entregues pelo senhor da padaria, que o ‘‘estimava’’ por pura ação humana (egoísmo envolto em interesse), pensando receber alguma recompensa na vida futura do pós-morte.

Na verdade, mandava que alguém os entregasse. Não lhe convinha manter relações amistosas com um parricida. As conversas vindas do prédio ao lado cessam. Ouvia-se, daí em diante, apenas o silêncio da madrugada: gatos remexendo os latões de lixos, cachorros impedindo, aos latidos, que os felinos fizessem suas refeições soturnas; um carro que passava, prostitutas e bêbados discutindo valores e cantando…

Enfim… É a vida boêmia dos homens e dos animais, que pode ser vista pela diminuta janela da cela do prédio de parede mofada. O condenado deixa cair um pensamento nostálgico e furtivo de sua saudade da liberdade através de uma fina e cristalina lágrima. Os olhos marejados são recompostos pelas mãos assassinas.

Os dedos cortados pelo vidro no dia da contenda seguram um lápis utilizado para grifar trechos importantes do livro – que também carregava em uma das mãos. Saiu da janela e foi acomodar-se no incômodo leito de alvenaria. O ambiente era pouco iluminado. Guardou o livro e pesou os olhos.

O dia amanheceu chuvoso e triste. Era o primeiro dia da sua morte e o último de sua vida. Pediu ovos e cigarros no café da manhã. Abraçou seus livros e pediu perdão à sua mãe em oração – coisa que não fazia desde a juventude, era orar.

“Obrigado, escritores amigos. Obrigado, tempos atrás das grades. Hoje sou um homem melhor graças a vocês.” – disse em voz alta, mas sem pretensão de ser ouvido pelos militares que o aguardavam à porta da cela.  Chorou e pediu para ser enterrado junto com os seus seletivos livros dos portugueses, russos e franceses…

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

 

 

MAIS Notícias
A taberna das horas mortas –  final
A taberna das horas mortas – final

A essa altura, estava claro que aquela figura idiossincrática estava envolta em mistérios; sua filosofia alicerçada aos grandes intelectuais da literatura e o seu modo de vida igualmente peculiar lhe conferiam uma atmosfera quase palpável. Senti um turbilhão de...

A taberna das horas mortas – parte I
A taberna das horas mortas – parte I

A taberna estava praticamente vazia quando cheguei, embora não fosse muito tarde. O dia tinha sido um daqueles que queremos esquecer no fundo de uma garrafa. Nós, os alcoólatras, afogamos dias assim, e, nos dias bons, celebramos com outra garrafa, amigo abstêmio que...

Um ser com sede?
Um ser com sede?

  A história – ou estória, se preferir – que irei relatar hoje, amigo leitor, ocorreu lá pelos saudosos idos da década de 1990. Finalzinho dela, na verdade, embora eu não saiba precisar o ano. Minha vó, que atualmente conta com 87 anos, foi quem relatou o...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *