Agreste, a cidade fantasma no interior de Quixelô

26/12/2021

Luís Sucupira é repórter fotográfico, jornalista (MTE3951/CE) e escritor.

 

A foto desta coluna foi tirada em dezembro de 2016. Sertão Central do Ceará, em algum dia de setembro de 1928, antes da data dedicada à Nossa Senhora das Dores, oito léguas depois de Iguatu, o silêncio da caatinga é interrompido pela ladainha de uma leva de tropeiros que estão a entoar cânticos repetidos em favor da fé. De terço na mão, seguem rumo a Agreste. Anos depois da Seca do Quinze, uma estiagem devastadora que matou milhões de pessoas pelo Nordeste, um homem leva na bagagem uma carga importante. A imagem de Nossa Senhora das Dores irá tomar posse da igreja construída em sua homenagem.

Voltemos a 2016

Agreste era um lugar vivo, com muitas casas boas e muitas novenas, muita fartura, festas e leilões animados. Batizados eram constantes, crismas também. A fé ali tinha sua morada e missão, mas um dia, as cidades cresceram no sentido contrário e aos poucos a comunidade foi definhando, perdendo moradores e suas casas sendo abandonadas. Agreste começava a transformar-se em uma cidade fantasma.

Aos 85 anos, dona Vanda é a memória viva do lugar e nos contou detalhes sobre a história de uma comunidade que de viva restou apenas a igreja e a fé das pessoas que lá ficaram. No cemitério onde estão enterradas as pessoas do lugar e outras que morreram longe dali. Na última cheia realizar a vontade do morto virou uma operação de guerra.

Nas ruínas da Casa Paroquial encontramos algo inusitado. Alguém, por um gesto de carinho ou de respeito, colocou a cadeira destinada ao padre pendurada no armador de madeira e de lá nunca mais saiu.

Agreste tem um açude chamado Melancias, feito ainda de tijolos de barro cozido, algo medieval e que dura até hoje que só esteve totalmente seco por duas vezes. Uma delas em 2016.

O sino roubado

Um dia roubaram o sino e a madeira de lei que cobria a mesa do altar. Tentaram vender o sino na feira de Iguatu, mas um devoto de Nossa Senhora das Dores reconheceu a peça e a pegou de volta. O tampo do altar perdeu-se para sempre. Há várias grandes casas abandonadas, algumas de portas e janelas abertas, como se ainda morassem pessoas lá.

Agreste hoje ganha vida em duas datas importantes mantidas pela Diocese de Iguatu: no dia de Nossa Senhora das Dores, comemorado em 15 de setembro, e o Dia de Finados em 2 de novembro. Nas duas datas, missas são realizadas.

Ela continua na fé de Nossa Senhora das Dores na luta pela liberdade da alma em busca da mais perfeita vida: a Eterna.

Agreste é mágica!

 

MAIS Notícias
Maria: uma estranha mania de ter fé na vida!
Maria: uma estranha mania de ter fé na vida!

  Em 1975, Fernando Brant estava numa praia, na cidade de São Francisco de Itabapoana, no Rio de Janeiro, quando um grupo de dança recém-formado, composto por homens e mulheres, o abordaram e pediram a sua ajuda na realização de um sonho: propuseram que ele...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *