SE O DESEJO ACABA

13/09/2025

Durante happy hour, conversamos em grande roda sobre infidelidade. Embora delicado, é tema de pauta, num tempo em que “ficar” é a palavra que define uma relação sem compromisso. De ambas as partes, por óbvio.

Penso que a infidelidade acontece quando um relacionamento, por sólido que pareça, vai se tornando frio, e o outro não desperta mais que amizade, companheirismo, esses pequenos-grandes valores que, sendo a essência do que deveria ser chamado amor, não são bastantes para preencher o tesão pela vida.

Quando isso ocorre, e tantas vezes ocorre, a porta está aberta para a aventura. É isso infidelidade? Não sei se a palavra se aplica adequadamente, hoje em dia, para definir essa difícil experiência de abrir-se ao desconhecido, o que, cedo ou tarde, se morreu o desejo, pode fatalmente acontecer. Não se trata (por Deus!), de fazer aqui a apologia de um erro, nem o elogio da traição. Pelo contrário.

O ideal, pois que a paixão nasce do idealismo antes de ser amor, seria que o correr do tempo fizesse crescer a atração que se nutre por aquele ou aquela com quem se decidiu viver. Mas nem sempre é assim que as coisas acontecem. Chega um tempo em que desaparece o encanto, a química, a mágica que um dia “nos fez desmoronar em presença do outro”. E a vida vai se tornando uma rotina pesada ao lado de alguém a quem se escolheu para dividir a mesma casa, a mesma mesa, a mesma cama. Haverá um tempo em que a pessoa que foi objeto de nossa admiração, dos mais impossíveis sonhos, é apenas a pessoa de quem se passou a conhecer os defeitos, as imperfeições, os vazios interiores, as manias ditas insuportáveis…

Lya Luft, a bela cronista do amor, diz em um de seus textos memoráveis:

“Se um dia, depois de muitos anos de casamento, há tempos transformado em amizade, o outro nos pedir a liberdade, numa prova de lealdade que sempre exaltamos, qual vai ser a nossa reação?”. Se nos propuser: “Somos amigos, bem amigos, mas é hora de vivermos separados!”, como vamos entender isso?

Estou convencido de que ninguém aceitará sem sofrimento tal realidade, quando o desejo, no outro, acaba. Na hora em que se sente preterido, o mundo parece desabar sobre a cabeça, e se sente vontade de morrer. E, no entanto, quantas outras dores seriam evitadas se se soubesse lidar com a desilusão!

Infidelidade, nessas circunstâncias, é palavra que não se aplica. Está no dicionário: “Qualidade de infiel”, que, por sua vez, é como se define “quem não cumpriu aquilo que se obrigou ou se obriga”.

O amor não é obrigação. O amor é dádiva. O amor é a união da amizade com o desejo. Se se desgastou, como nos lembra a cronista, “por que não nos permitirmos a quebra do contrato” e partimos para a condição de amigos? Mas quase nunca isso é possível para quem perdeu o posto de objeto adorado. Haverá sempre a resistência, a tentativa em vão de sustentar o que está no chão, em pequenos pedaços.

Por isso a aventura pode vir, devagar ou às pressas, sorrateira ou desavergonhada — e, do inesperado, a nova paixão. Se o desejo acaba.

Durante a conversa a que me referi no alto, ocorreu-me citar Jabor: “O amor depende do nosso desejo, é uma construção que criamos. Sexo não depende do nosso desejo: nosso desejo é que é tomado por ele”.

Entre um chope e outro, já caía a tarde, as convicções aflorando, levemente tocadas pelo efeito do álcool, mudamos de assunto.

E nossos olhares se voltam, como que por milagre, para um jovem casal que se beija calorosamente na mesa ao lado.

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Encontro de velhos amigos
Encontro de velhos amigos

      Dia desses, entre surpreso e indignado, precisei dos trabalhos de uma advogada, que nem sempre saem ao gosto do leitor as coisas que escrevo aqui. É que homens públicos, afeitos às conveniências e aos elogios fáceis, o mais das vezes insinceros e...

As Boas Mulheres da China
As Boas Mulheres da China

    Vejo no jornal estatística atualizada da violência contra a mulher no Brasil. São números assustadores. Há coisa de uns muitos anos, uma amiga de Piracicaba recomendou que eu lesse “As Boas Mulheres da China”, da jornalista Xinran. Passado tanto tempo,...

Adeus a Cely
Adeus a Cely

“… a saudade dói como um barco/que aos poucos descreve um arco/e evita atracar no cais” (Chico Buarque) A última vez que nos vimos, faz algum tempo, foi num encontro casual, ela chegando e eu saindo de um shopping da cidade. Me falou sobre o que faria ali: “Vim à...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *