Adeus a Cely

15/08/2026

“… a saudade dói como um barco/que aos poucos descreve um arco/e evita atracar no cais” (Chico Buarque)

A última vez que nos vimos, faz algum tempo, foi num encontro casual, ela chegando e eu saindo de um shopping da cidade. Me falou sobre o que faria ali: “Vim à livraria comprar seu romance!”
Referia-se ao livro “Quase Romance”, que eu acabara de lançar, rompendo finalmente as resistências de autor que me afastavam das narrativas longas, num tipo de estreia que eu ainda não sabia que aceitação viria a ter.

Generosa, mas investida da autoridade que lhe conferiram os muitos anos a lecionar língua portuguesa e literatura, coisa que soube fazer à perfeição, disse-me da boa repercussão do livro entre profissionais da área.

Ouvi aquilo com um sentimento tão bom, pelo que havia de espontâneo e sincero em suas palavras, que preferi mudar de assunto, não sem antes tirar da mochila um exemplar do livro para presenteá-la.

Fiz-lhe uma dedicatória afetuosa, ainda me lembro.

Falamos sobre Iguatu, sobre os amigos comuns, e, principalmente, voltamos no tempo, reeditando de memória os muitos anos de convivência na antiga Escola Agrotécnica, atual IFCE; recordamos com carinho os contemporâneos das grandes jornadas, dos alunos aos quais demos tanto de nós, e com quem, à maneira de Guimarães Rosa, aprendemos muito. E falamos de nós mesmos, que também, mais que apenas colegas, sempre fomos amigos — mesmo quando, por uma razão ou outra, trilhamos caminhos diferentes, a política a ditar convicções desencontradas.

Ontem, passados dois ou três anos desde o último encontro, recebi a notícia de que havia nos deixado, abrindo um vazio que só o tempo será capaz de nos fazer dimensionar, entre saudosos e gratos pelo tanto que fez, como educadora e como cidadã.

Maria das Chagas Oliveira, Cely, como a chamávamos, foi uma dessas pessoas, cada vez mais raras nos dias de hoje, que se fazem notabilizar, não pelo prestígio adquirido a qualquer custo, avessa que foi às luzes dos spots e das ribaltas, mas pela correção com que se conduziu sempre, quer em sala de aula, como professora dedicada e austera, quer nos muitos cargos pedagógicos que ocupou: foi Chefe de Departamento, Coordenadora Geral de Ensino e Orientadora Educacional. Atuou com correção e devotamento.

Sobre o nosso encontro e o romance com que a presenteei, nunca me retornou, mas soube, à boca pequena, que havia gostado, bem ao seu jeito meticuloso de gostar e de avaliar tudo aquilo, em termos literários (e artísticos), que lhe chegasse às mãos: com rigor analítico, com isenção, com honesta capacidade de julgar e emitir opinões.

Fiquei-lhe grato, pois que o elogio obsequioso nunca foi para Cely um expediente aceitável, o que não raro lhe valeu o rótulo de intransigente ou demasiado rígida.

Como seu colega e amigo, reitero, sinto e sentirei falta da professora Cely, a quem devo, além do companheirismo nas lutas que lutamos juntos, a boa acolhida à época do meu ingresso na EAFI, recém-saído dos bancos da universidade, cheio de entusiasmo e sonhos.

No momento em que produzo esta coluna para o jornal A Praça, entre saudoso e grato, como dizia há pouco, reconstruo na saudade os espaços físicos da Escola Agrotécnica em que trabalhamos por longos anos, e me voltam, pelos corredores e pelas salas que mentalizo neste instante, as personagens de uma história que já vai distante, mas que parece, como que por milagre, poder ser reescrita, atravessando as barreiras da lógica e do tempo, pelas mãos de Aurício Colares, Raimundo Vieira, Edson Gouveia, João Gualberto, Gizeuda, Joacilo, Geralúcia, Frank Wagner, Pedro Normando e tantos e tantos amigos, importantes e queridos quanto Cely, moradores do talvez ou do quem sabe, longínquos e improváveis servidores e professores do que, pela falta de melhor compreensão, para lhes fazer justiça, costumamos chamar de Céu.

Adeus, Cely!

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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