‘‘Mediocracia intelectual’’

19/09/2025

‘‘Apenas deveríamos ler os livros que nos picam e que nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para que lê-lo?’’ – Franz Kafka

Nossa contemporaneidade, com seus holofotes voltados para o supérfluo, ignorando qualquer cultura substancial, provida de valor, desceu ladeira à baixo quando, para piorar, passou a endeusar os patéticos ‘‘influenciadores digitais’’. Com o abandono… aliás, com o completo desconhecimento sobre alta cultura literária, a terra está sendo povoada e, pasmem, liderada por medíocres e, ainda pior, infra medíocres.

Observem, por exemplo, a forma como escrevem (digitam) nas redes sociais. Mostram escritas execráveis, provando desconhecerem a nossa sagrada Língua Portuguesa. Conotam e denotam a ignorância, ainda que, paradoxalmente, enxergando-se como sábias criaturas críticas, e conhecedoras de toda sorte de temáticas. Expressam-se horrivelmente porque é o máximo que a mentalidade limitada dessa estirpe consegue alcançar.

A geração contemporânea, tão conectada, parece ter rompido a última linha que a ligava à verdadeira cultura: a leitura. Não a leitura rasa de posts com frases feitas, mas a leitura da alta literatura, aquela que exige tempo, silêncio e, acima de tudo, humildade diante da grandeza de um Dostoiévski, de um Machado, de um Camus.

A multidão aplaude esses oráculos de plástico, que vendem fórmulas vazias embrulhadas em carisma superficial. São os novos ídolos: fabricados em série, consumidos como refrigerante barato, esquecidos na mesma velocidade em que surgem.

A mediocridade, entretanto, não nasce sozinha. Ela se alimenta da preguiça mental, da recusa em confrontar ideias complexas, do medo de se sentir pequeno diante de um grande autor. O jovem contemporâneo prefere ser gigante em sua bolha digital, colecionando curtidas e seguidores, do que ser aprendiz em um diálogo com a alta cultura.

É triste perceber que, enquanto a literatura abre portas para a profundidade, a filosofia nos ensina a pensar e a arte nos expande, o que se vê é uma multidão hipnotizada pela dança coreografada da imbecilização coletiva. O tempo, antes dedicado ao silêncio fértil da leitura, é consumido na maratona de vídeos que nada acrescentam além do vazio.

O futuro dessa geração não dependerá de quantos filtros ela criou, mas de quantos livros ela ignorou. A mediocridade não é destino, é escolha. E a cada vez que se troca um clássico por um “coach” de frases prontas, escolhe-se a superficialidade. No fim, não serão as redes sociais que ficarão para a história — mas o silêncio sepulcral das bibliotecas vazias.

 

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

 

 

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