O Preço das Coisas Invisíveis

12/12/2025

 

Há livros que obrigam a gente a enxergar o que sempre esteve ali, mas que ninguém notava. Foi assim quando me deparei com O Cálculo Econômico em uma Comunidade Socialista, de Ludwig von Mises.

Mises escreve como quem acende uma vela no fundo de um galpão cheio de coisas — ferro, madeira, máquinas, pessoas, tempo. A cada página, a luz vai revelando uma verdade desconfortável: que nada, absolutamente nada, pode ser organizado sem que saibamos o custo real de cada escolha. É quase engraçado como passamos a vida acreditando que as dificuldades da economia se resolvem com boa intenção ou discursos emocionados, até que alguém nos lembra que o mundo não funciona por bravatas, e sim por cálculos — não matemáticos, mas humanos.

O argumento de Mises é simples, mas profundo: sem preços livres, não há como saber o valor das coisas — e sem isso, ninguém consegue decidir o que produzir, quanto produzir ou como produzir.

É como tentar cozinhar no escuro, sem saber onde estão os ingredientes, sem sentir o cheiro das especiarias, sem perceber que já queimou a panela. A economia socialista, na visão dele, seria essa cozinha apagada: organizada, limpa, cheia de prateleiras… mas sem luz.

Ao longo da leitura, percebi que o autor não falava apenas sobre sistemas econômicos. De certa forma, falava sobre a própria vida. Porque viver também é calcular — não no sentido frio da palavra, mas no sentido de pesar consequências, medir esforços, reconhecer limites e decidir caminhos.

Sem esses “preços invisíveis”, nos perdemos.

Mises, com sua prosa direta, nos recorda que a liberdade não é apenas um ideal político, mas uma necessidade prática: só em liberdade os valores se revelam, as coisas se posicionam, e o mundo fica inteligível.

Mesmo quem discorda dele é obrigado a admitir que ali há uma fagulha de verdade, dessas que não se apagam facilmente.

Fechei o livro com uma sensação estranha: a de que tinha lido menos sobre economia e mais sobre clareza. Mises não nos ensina apenas como funcionam mercados; ensina que, sem a liberdade para comparar, trocarmos e escolhermos, a própria realidade se torna opaca.

E talvez seja essa a maior lição: que o cálculo econômico não é apenas uma teoria, mas uma forma de manter a luz acesa no grande galpão da convivência humana. Porque, sem luz, ninguém sabe o valor de nada — e nada, sem valor, pode ser construído de verdade.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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