Coringa, alegoria da revolução

11/10/2019

Mal saio do cinema e massifico entre os amigos, pelo WhatsApp, o meu entusiasmo com Coringa, o aguardado filme de Todd Philips a que assisti no domingo, 6. Ambientado em Nova York (Gotham City), durante o governo Ronald Reagan, inícios da década de 80, Coringa, mais que Bacurau, o aclamado filme de Kléber Mendonça Filho, é uma porrada no fígado dos entusiastas de extrema-direita que assolam o Brasil desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência da República.

Arthur Fleck, o protagonista, é um palhaço malsucedido que vive com a mãe e é portador de um distúrbio psiquiátrico que o leva a ser alvo de maus-tratos, bem na linha do que ocorre numa das sequências mais dolorosas do filme quando Fleck é brutalmente espancado por um grupo de rapazes durante uma viagem de metrô. 

Cansado de ser vítima de uma sociedade desumana, perversa e insensível, num tipo de reação que bem sinaliza para o fato de que as contradições sociais geram elas mesmas seus monstros, Fleck mata-os violentamente. O recado, a partir daí, está dado: a verdadeira violência é a do sistema em que pobres, negros, índios e homossexuais são historicamente pisoteados por uma elite econômica inescrupulosa e egocêntrica, essa mesma elite que, no Brasil dos dias atuais, festeja a política econômica que suprime direitos sociais e trabalhistas e condena à quase absoluta miséria a maioria da população.

Dispensável dizer que Todd Philips não terá pensado no Brasil, mas nos Estados Unidos, onde, desde os anos 80, os problemas sociais se agravam em proporções alarmantes: a desigualdade cresce; a violência é recorrente mesmo em escolas, cinemas e parques de diversão; as minorias voltam a ser objeto das mais impensáveis formas de perseguição; o desemprego atinge níveis assustadores e os serviços essenciais, saúde, educação, moradia etc., caem a níveis de qualidade preocupantes nos dois últimos anos. Para se ter uma ideia, pessoas morrem por não terem acesso a remédios básicos, como a insulina, por exemplo. 

Mas o filme, pelas mesmas razões, cabe como uma luva na realidade do Brasil contemporâneo. Essa a razão por que, pode-se notar à saída do cinema, há entre grande parte do público um certo ar de decepção com o filme: é que muitos se veem na história do clown Fleck, não como ele, vítima de uma sociedade sexista, autoritária e moralista, mas como os donos do dinheiro que medem os menos favorecidos com o metro do seu caráter criminoso. Gente que pisa nos menos favorecidos, que considera que índio é bicho, preto bandido, homossexual merecedor de peia, e para quem é preciso manter a “casa em ordem” ainda que sob os diferentes mecanismos de repressão.

Por tudo isso, Coringa é, insisto, um cruzado no fígado. Não bastasse a sua densidade do ponto de vista conteudístico, no entanto, é um filme tecnicamente perfeito. Com um roteiro extremamente bem construído, uma direção de atores irrepreensível e uma interpretação sublime de Joaquim Phoenix (candidatíssimo ao Oscar de Melhor Ator) no papel de Fleck,* tudo indica, é o filme do ano. A sequência da “revolução” dos marginalizados, no final do filme, sob a liderança simbólica de um clown, haverá de entrar para a história do cinema por sua beleza a um só tempo bestial e poética. Imperdível.

* Robert de Niro, como o apresentador de tevê vaidoso e oportunista a serviço do capital, está também soberbo.

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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