A cada fim de dezembro, é comum me pedirem relação de livros do ano. Mas me esquivo, pois que já o fazem, supostamente com muito maior autoridade e prestígio, grandes jornais e revistas.
Contudo, diante de carinhosos apelos, lembro aos generosos solicitantes que tantas são as colunas dedicadas a livros, filmes e outras produções artísticas, que aqui, neste espaço, esteve, com frequência, aquilo que considero mais relevante ou mais “recomendável” em termos artísticos, que me perdoem a infelicidade da expressão.
Em relação à arte, ressalto sempre, a exemplo de quase tudo que nos é dado avaliar, são inevitáveis as subjetivações, o que, na contramão do que pode parecer, mais ainda revela o quanto existe de quase inesgotável em cada grande livro ou filme, para falar de duas modalidades estéticas com que tenho lidado estreitamente ao longo de quase cinquenta anos.
A arte tem sido, todos veem, o meu outro alimento, sem o qual, confesso, não poderia viver.
Dito assim, no entanto, espero do raro leitor e da rara leitora, se houver, não tirarem conclusões equivocadas a respeito do meu juízo sobre a literatura e o cinema, concluindo de minha parte uma atitude meramente “impressionista”, destituída de elementos teóricos que resultem em juízos desprovidos de fundamentação.
Devo evidenciar, a esta altura, que a subjetivação a que me refiro não significa desprezo ao que existe na “coisa artística” que permita uma avaliação correta, apoiada em componentes do próprio objeto artístico — a obra em si —, trate-se de um poema, um romance, um filme, uma tela etc.
Sob este aspecto, importa ressaltar, deve-se transitar por territórios filosóficos que se estendem de Kant a Hegel, chegando a Mikel Dufrenne, o estudioso francês para quem a arte resulta como diálogo entre autor e receptor. Mesmo em relação a Kant, por exemplo, é equivocada a afirmação de que “gosto não se discute”.
O juízo de gosto, pois, está a meio caminho entre a percepção e a avaliação, bastando, para isso, que o receptor da expressão artística esteja minimamente provido de embasamento teórico. Não sendo do ramo, que saiba ler com atenção.
Desculpando-me pela digressão, e pela aridez do texto, lembro de que escrevi nos últimos 12 meses sobre livros os mais diversos, de poesia, contos e romances a obras de cunho político e de crítica literária e cinematográfica.
Não farei, ainda uma vez, uma relação propriamente dita, na linha do que interessou a Umberto Eco em livro soberbo (“A vertigem das Listas”), mas rápidas referências a um ou dois livros que afirmei “recomendáveis”, levados em consideração a espontaneidade das escolhas e os critérios de avaliação teórica responsáveis.
Começo por destacar, no terreno da não-ficção, a belíssima biografia “Elis, nada será como antes” (Companhia Das Letras, 2025), de Julio Maria. O livro é bem escrito, rigoroso enquanto pesquisa, proporcionando uma visão consistente da trajetória da maior cantora brasileira, sem desprezar, o que é não menos sedutor, as contradições da mulher corajosa e politizada, seus fracassos e suas conquistas, o justificado prestígio e os deslizes que a levariam a um final impensado para uma artista de extraordinário talento como Elis Regina.
“Trincheira tropical, a Segunda Guerra no Rio” (Companhia Das Letras”, 2025), de Ruy Castro, é livro obrigatório para quem desejar conhecer de perto o que se passou na capital fluminense durante o conflito que envolveu três diferentes percepções de mundo (fascista, comunista e democrata) na extensão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), enquanto o Brasil vivia sob a ditadura de Getúlio Vargas.
De outro lado, transitando entre a realidade e a ficção, bem ao estilo literário que vem se tornando uma tendência dominante na grande literatura, destaco as traduções recentemente chegadas ao Brasil da notável escritora uruguaia Cristina Peri Rossi. Deles, li e recomendei aqui o romance de formação autobiográfico “A insubmissa” (Bazar do Tempo, 2025). A leitura deste livro coloca o leitor em contato íntimo com uma mulher desconcertante, cuja personalidade contestadora sobressai em meio a uma vida marcada por doloroso processo de amadurecimento.
Ainda da escritora uruguaia, exilada em Barcelona desde 1972, fugindo do eminente golpe militar, é deleite e crescimento pessoal debruçar-se sobre a maravilhosa antologia poética “Nossa vingança é o amor” (Editora 34, 2025). Livro para se ter na cabeceira, bem ao alcance da mão, tão rica no plano da expressão e do conteúdo é a poesia de Cristina Peri Rossi. A propósito, citei-a em coluna recente: “Tenho uma dor aqui/bem do lado da pátria”, referindo-me ao Brasil que a um só tempo nos enche de orgulho e vergonha.
Deveria falar ainda do inclassificável “Nossa Senhora das Flores”, romance recém-chegado aqui em eficiente tradução de Júlio Castañon Guimarães. Trata-se de obra-prima de um dos mais importantes escritores do século XX. Mas é curto o espaço do jornal, e amplo o universo artístico.
Que venha o ano novo, e que possamos andar firmes e confiantes sobre os dois pés, que este chão é nosso, em que pesem a corrupção da religiosidade e a priorização inescrupulosa do capital, reedição vexaminosa dos “Vendilhões do Templo”.
Bem ao jeito de Eduardos, Sóstenes e Jordys.
Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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