Em busca do tempo perdido

30/05/2026

De um leitor, por curioso, recebo a indagação: “Como surgem as recordações nos seus textos? Quero escrever minhas memórias, mas me sinto sempre bloqueado!”

Querido amigo, no meu caso, minhas memórias dão a ver a minha inclinação para o confessional. Constituem a prova do quanto estimo a vida pretérita, as pessoas que passaram no caminho da minha existência, as coisas grandes ou pequenas que me aconteceram, e que, de alguma forma, ficaram presas na tela das retinas e nas cordas do coração.

Para contá-las, talvez canhestramente, assim como o faço, tenho de lançar mão de expedientes os mais variados, desde diários de viagem, anotações e rascunhos diversos, fotografias etc., a conversas com pessoas que estiveram comigo nesses momentos marcantes da minha vida. Não raro, por e-mail ou telefone. Às vezes, acordando durante a madrugada na ânsia de relembrar um fato, o mês ou ano em que estive num certo lugar, quem me acompanhava naquele instante.

Nunca me propus escrever uma autobiografia no sentido tradicional com que a definimos. Não tive, sob essa perspectiva, quem sabe não tenha, uma vida que a justifique. Abomino a arrogância, o egocentrismo tolo. O que, à maneira dos cronistas de jornal, desfecho com essas subjetivações, são recordações atemporais, demasiado humanas, bem ao jeito do filósofo Nietzsche, que tanto admiro, muitas vezes imprecisas, eivadas de hesitações, equívocos, brancos, que a mente é falha e o tempo já vai longe.

Rosa Montero, a madrilenha que é uma das minhas paixões atuais, no imperdível “A louca da casa”, diz existirem dois tipos de escritor: os memoriosos e os amnésicos. Sou dos primeiros, os saudosistas, os que se prendem poeticamente ao passado, os que não conseguem se desvencilhar da memória como uma bússola a indicar os novos caminhos. Tudo, no entanto, sem perder de vista o tempo que me resta, com o olhar lá longe, onde se perde a linha do horizonte de minha existência.

Li, há pouco tempo, um livro de memórias saboroso, “Meu último suspiro”, do cineasta espanhol Luis Buñuel, de que extraio esta bela afirmação: “Precisamos começar a perder a memória, ainda que gradativamente, para nos darmos conta de que é essa memória que constitui nossa vida.” Que sábia percepção!

Por lapsos que nem sempre somos capazes de evitar, aqui e além terei trocado um registro, confundido um lugar, uma data, o nome de alguém com quem estive num e noutro momento dessa caminhada. Nada, contudo, que desfigure o eixo memorialístico, a sinceridade e a intenção com que, vez e outra, torno públicas essas recordações.

A teoria há muito concluiu que a memória se mistura com a fantasia, posto que vem das profundezas da subjetividade de quem procura reconquistar o tempo perdido. Nunca esse resgate se dá de forma isenta, incontaminada pela voz do inconsciente. Quase sempre, por mais que tenha buscado esse estado puro da recordação, essa isenção utópica, é óbvio que não o consegui (nem o conseguirei a qualquer tempo!), razão por que nem tudo o que está naquilo que escrevo, em jornal ou em forma de livro, é necessariamente o fato mais significativo ou mesmo interessante de uma viagem, uma circunstância vivida, uma experiência pessoal digna de nota. Pelo contrário, é incalculável o número de situações, fatos, acontecimentos marcantes que sequer foram ou são citados. Há, assim, na esteira desses lapsos, pessoas importantes às quais não dispensei uma linha que fosse, e que, com a mais viva sinceridade, foram ou são indispensáveis para mim.

Se não me engano, é de Sófocles, o trágico grego, a constatação de que somente quando começamos a sentir o envelhecimento somos capazes de dimensionar com justeza o valor da vida. Cedo, felizmente, pude perceber isso, o que me deu a chance de repensar acerca de quase tudo o que me diz respeito, pessoas, sentimentos, e valorizar mais as pequenas coisas, sem deixar de agradecer sempre o milagre da vida. É nesse aspecto que posso afirmar, ao fim dessa crônica um tanto didática, que são os meus familiares, próximos e distantes, os amigos, as pessoas com as quais divido ou dividi experiências as mais diversas ao longo desses muitos anos, que constituem o bem mais precioso dentre as minhas conquistas, razão por que me deixa tão feliz trazê-las sempre de volta ao coração. A propósito, não será muito lembrar-lhe a etimologia da palavra recordar: “Trazer de novo ao coração”. A essas pessoas, ocorre-me lembrar, dedicarei livro futuro, já em fase de edição sob os cuidados da jornalista e escritora Heliana Querino.

Realizo com a escritura desses textos o que posso definir como um movimento proustiano em busca do meu tempo perdido, sem conseguir, contudo, evitar fazer uma avaliação atualizada dos fatos que compõem a sua matéria fundamental. O ato de recordar é sempre um ato de ressignificar as experiências vividas. Tanto melhor.

A vida é um milagre, uma bênção. Urge vivê-la intensamente, sem medo. Nós é que a complicamos, algumas vezes, irascíveis, inconstantes, frívolos, tacanhos, arbitrários, opinativos, insidiosos. É tudo tão mais fácil, quando abrimos os olhos para as coisas essenciais… Quando avaliamos as pessoas por aquilo que trazem de bom dentro de si…

Que meus escritos possam, quando menos, constituir um incentivo para aqueles que ainda não adquiriram o hábito de ler ou que não tiveram a oportunidade de ler as obras a que me refiro neste espaço; de assistir aos filmes que comento, e conhecer os lugares em que estive. Terá valido a pena, que ‘tudo vale a pena, se a alma não é pequena!’, nas palavras memoráveis de Fernando Pessoa.

Por fim, prezado amigo e leitor, se algo assim lhe ocorrer, ainda que em medida diferente e significados outros, não adie seu projeto memorialístico. Escreva-o. E não esqueça de me enviar um exemplar do livro.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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