Da Arte e das mulheres

16/05/2026

 

Para Maria Nair de Pinho Teixeira (In memoriam)

 

Tirando a mulher, o resto é paisagem. Se não me falha a memória, está na poesia de Dante Milano.

A propósito, voltando-me para o universo da Arte, quem ainda não terá ouvido falar, por algum meio e em medida alguma, das belas mulheres do Louvre? Pois bem, são famosas as musas que constituem uma porção especialmente atraente do mais famoso museu de Paris.

Começo por me reportar à escultura “A Vitória de Samotrácia”, de autoria desconhecida, a ocupar um lugar especial no topo de uma escadaria do suntuoso edifício. A sua realização remonta, supostamente, a 190 ou 200 anos a.C. Como atestam alguns historiadores, seria provavelmente a ponta esculpida de uma proa de navio, ou, como querem alguns outros estudiosos da história da Arte, um ex-voto dedicado a uma conquista ou a uma batalha vencida.

Pouco vale saber. O mais importante é estar aqui, cheia de mistérios e deslumbrante beleza, ao alcance dos meus olhos, súditos e derramados de prazer, numa experiência estética para a qual não encontro um nome ou definição possível: o milagre da Arte.

Para além disso, o que parece consensual é que a peça constitui um símbolo da vitória humana sobre o desconhecido. Sem cabeça e braços, a escultura avulta, solene e sedutora, entre as muitas mulheres do Louvre, como se a Arte seja mesmo capaz de salvar o mundo.

Havia pouco topara eu com a “Vênus de Milo”, com o sortilégio de sua nudez, despertando em mim, como a gregos e troianos, um tipo de “iconologia” ante a sensualidade clássica, que, como se por força de alguma magia, parece surgir do mármore, inexplicável e prodigiosa.

Representa, como se sabe, Afrodite, a deusa grega do amor e da beleza, chamada de Vênus entre os romanos. Diante da estátua, curvo-me sobre o ombro da namorada para comentar a nudez ambiguamente contida e provocadora da deusa. Lembro-lhe, na oportunidade, vezo de professor, que Heine, Henri Heine, o famigerado poeta alemão, chamava-a de “Nossa Senhora da Beleza”. Eu, e meus poetas…

Pouco depois, outra das mulheres encantadoras do museu, a jovem “Liberdade Guiando o Povo”, de Eugène Délacroix, obra-prima do Romantismo francês, antecipando-se no tempo, para exaltar a capacidade revolucionária da figura feminina em meio a um mundo, desde então, dominado por homens. Até quando?

Assim, aqui e além, cada uma com sua magia e seu encantamento, carregadas de simbologias e sugestões, veem-se no Louvre essas maravilhosas mulheres, musas inspiradoras dos grandes nomes da Arte Ocidental.

Que dizer, então, a dois passos de mim, do olhar indecifrável da pintura de Lisa Gherardini, a poderosa mulher do florentino Francesco di Bartolomeo di Zanoli del Giocondo (arre!). Ou, simplesmente, a Gioconda, mais conhecida como Mona Lisa, incomparável representação do Alto Renascimento e do gênio de Leonardo di Piero Da Vinci.

Tomado de espanto, no sentido com que a define o poeta Ferreira Gullar, deparo, assim, com uma quase multidão de turistas diante da tela de proporções tão pequenas, e importância gigantesca, de Leonardo Da Vinci.

Agora veem-se pessoas tomadas de uma emoção intensa, não raro mal disfarçando as lágrimas incontidas, como não acreditando estarem aqui, tão próximo (e tão distante) da mais aurática e mais esplendorosa obra do cânone artístico ocidental.

Com o seu sorriso desafiador e profundamente enigmático, expressão de um ato paradoxalmente imponente e simples, contemplo a figura intraduzível, e penetrante, e sedutoramente serena da mais conhecida mulher da Arte Ocidental, a Mona Lisa, sobre quem, num tipo inusitado de sortilégio, ocorre-me lembrar, em leitura poética memorável, dirá o poeta Carlos Drummond de Andrade em “Farewell”, seu derradeiro livro: “O ardiloso sorriso/alonga-se em silêncio/para contemporâneos e pósteros,/ansiosos, em vão, por decifrá-lo./Não há decifração. Há o sorriso.”

Assim, enigmáticas, intangíveis, sedutoras, como querem alguns; obscuras, inexplicáveis, cheias de mistério e encanto, sob a avaliação de outros; fortes e sensuais, quem sabe firmes e decididas, como as figuras reais que lhes serviram de modelo, as mulheres do Louvre são um espetáculo à parte. Vou adiante.

Inspiradoras ou veladamente soberbas, por certo, sublimes, como me é dado percebê-las neste instante, tal qual estas mulheres do Louvre, são também, sem distinção de cor ou de raça, todas as mulheres, em todos os lugares, através dos tempos e das culturas, despertando-nos, do alto de sua grandeza e significado real, a consciência de nossa pequenez – e, o que mais importa, a necessidade de admirá-las e respeitá-las sempre, num mundo de misóginos e intolerantes.

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

 

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