Quase que não seria possível se fazer à mesa àquela noite. Os últimos dias não estavam sendo nada fazeis para Jessé. Todavia, com muito esforço, ainda tonto, cambaleando pelo corredor, conseguiu jantar com a sua velha mãe naquela noite como outra qualquer.
— Fiz sopa de feijão, Jessé — disse a velha. — Coma devagar, filho, para não passar mal durante a madrugada outra vez. Ontem você quase desmaiou de tanto vomitar. Temo pela sua vida… — a senil já não disfarçava o seu olhar piedoso. Já não mais dissimulava. Perdera as esperanças próprias das mães.
— Não se preocupe, mamãe, já estou conhecendo bem a minha enfermidade. Acho que consigo compreendê-la melhor agora. O meu organismo está frágil, e já me conformei com isto — falou sem aparentar desgosto. — Ela ataca ferozmente apenas quando sou displicente.
Jessé raramente comentava sobre a sua enfermidade. Nem mesmo com a sua mãe. Assim sendo, logo o silêncio reinou daquele instante até o fim da refeição. Seu olhar era perdido. Sua mente, na maioria das vezes, saudosista, relembrava os seus tempos saudáveis.
O homem, que agora carregava em seu corpo os aspectos oriundos da doença: magreza excessiva, fraqueza contínua, falta de ar intermitente, apesar de saber que existem vidas piores do que a sua, não se conformava e via-se fadado tão somente a esperar o tempo passar. Aguardar i inexorável avanço da enfermidade, que o levaria, mais cedo ou mais tarde, para a sua última morada. Contudo, estava estranhamente passivo. Desistira, talvez.
Olhou para sua mãe e para a sua insossa sopa escura de feijão no prato. Voltou a pensar. Seu devaneio, agora, o levou ao ano de 1939. Nesse ano, o país encontrava-se sob o regime do Getúlio Vargas, em um período conhecido como Estado Novo. Jessé trabalhava em um departamento secreto do governo. Estava no auge da sua juventude, poder econômico e força física. Era também o ano do início da Segunda Guerra Mundial, mas Jessé, que nada tinha a ver com a história, limitava-se apenas a comentar, com os amigos, sobre a temática bélica mundial.
Gozando de boa saúde, fartava-se com a vida boêmia nas noites e madrugadas. Era comum vê-lo com algumas meretrizes em alguma turma de amigos — igualmente beberrões — nos cabarés da cidade. O jovem, que fugia a qualquer tipo de compromisso romântico, mesmo namoricos, dizia ter nascido para viver e morrer solteiro. Agora, olhando para a sopa, a velha casa e a sua igualmente velha mãe, enfermo como se encontrava, pela primeira vez desejou ter alguém ao seu lado que não fosse a sua mãe. Uma companheira… Uma só das tantas que ele deixou ir embora com lágrimas nos olhos…
— Mãe, a senhora se arrepende de muita coisa que fez ou deixou de fazer na vida? — Perguntou sem levantar a cabeça, olhando para o prato já vazio.
— ‘Arrepender’… Não, acho que não… Talvez eu carregue algum remorso, filho, só isso. Mas não quero lhe falar…
— Tudo bem, Dona Alzira, não precisa! Eu respeito a sua privacidade, minha santa mãe.
Ele sorriu amarelo e voltou para o seu quarto com a mesma dificuldade de quando foi jantar. Deitado, sentindo-se ainda tonto, mas sem sono, os pensamentos continuavam a invadir a sua mente. ‘‘Deprimente é o fim da vida de um homem enfermo’’, pensou enquanto olhava para a sua estante de livros, considerando ler um pouco antes de ‘‘Hipnos’’ chegar para embalá-lo e livrá-lo da desconfortável realidade.
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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