A taberna estava praticamente vazia quando cheguei, embora não fosse muito tarde. O dia tinha sido um daqueles que queremos esquecer no fundo de uma garrafa. Nós, os alcoólatras, afogamos dias assim, e, nos dias bons, celebramos com outra garrafa, amigo abstêmio que acompanha este relato.
Por não gostar da reminiscência da claridade crepuscular, sento-me sempre na mesma cadeira da mesa de canto de número três, pois ela fica de costas para a entrada, escondendo-me na agradável penumbra. Sempre trago um livro comigo, pois gosto de ler enquanto bebo.
Foi quando um cavalheiro ébrio chegou. Ele cheirava a peixe. Tinha uma longa barba e trajava uma vestimenta que não parecia pertencer à nossa contemporaneidade. Lembrava um pirata, desses dos filmes, mas não tinha tapa-olho nem um papagaio no ombro.
Sentou-se de frente para mim. Assim, uma pequena réstia, que vinha de um minúsculo vitral da porta central, iluminou suavemente seus olhos castanhos claros. Ele olhava para mim. Eu, nesse instante, voltei a olhar para o livro, mas sem o ler.
Eu tinha certeza de que não conhecia aquele excêntrico senhor. Ou será que conhecia? Faço amizade com toda sorte de bêbados, talvez ele fosse mais um deles. Resolvi pedir mais uma cerveja. O cavalheiro, nesse instante, disse que queria uma também, e da mesma marca da minha. Ele sorriu para mim enquanto fazia o pedido, mas o seu sorriso parecia forçado e amarelo.
‘‘Sabe, amigo, nós, que estamos nas horas mortas da vida, precisamos mesmo fugir do mundo por intermédio da bebida. ‘É a hora de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos! Embriagai-vos sem cessar! Com vinho, poesia, virtude! Como quiserdes!’’’ — falou-me o velho ‘‘pirata.’’
Fiquei surpreso com a abordagem, sobretudo utilizando-se do poema de Baudelaire. Pode ser preconceito, mas ele não tem cara de quem conhece muito de literatura. Na verdade, pensei até que analfabeto ele fosse. Ou será que é, e apenas ouviu alguém recitar o velho poeta francês? Em todo caso, o fato é que ele puxou um assunto comigo.
— Horas mortas, senhor? —Indaguei — Como assim?
— Ora, meu caro desconhecido, acaso não vê que essa e as próximas horas do dia são destinadas ao ‘‘nada fazer’’? Nada produzimos, nada labutamos… apenas estamos aqui na caverna, nas sombras, com medo de gente, do mundo; é a Alegoria da Caverna às avessas!
Sim, o velho introduziu Platão à conversa, que estava ficando interessante, eu admito! Nesse momento, até esqueci do cheiro de peixe que exalava daquele fascinante e estranho ser, que veio brindar a noite com sua filosofia literária.
O colóquio fluiu tão naturalmente, que, passados alguns bons minutos, parecíamos amigos de longa data. A essa altura, ele já se fazia à minha mesa, ante o meu convite. Almas assim precisam ser valorizadas. E foi o que fiz: valorizei.
Fizemos verdadeiras digressões pela filosofia, alta literatura, política… Ah, e, claro, o mote predileto de todo bom vivant: mulher. Nesse assunto, o velho pareceu se esquivar. Mas logo cedeu e mencionou a sua viuvez precoce, aos vinte e um anos de idade. Morrera de tuberculose, a ‘‘pobre e doce alma’’, como disse o velho enquanto enxugava uma furtiva lágrima no canto do olho esquerdo.
— Acabo de chegar de uma expedição que durou três anos, meu jovem. Sou um homem da água; a terra não é segura. Foi estando nela que perdi tudo: meus pais, filho, mulher, amigos… No mar, sou só mais um ser aquático, que não necessita de socialização. Mas voltemos às horas mortas, cavalheiro; não quero passar pela vergonha de chorar novamente…
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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