A história – ou estória, se preferir – que irei relatar hoje, amigo leitor, ocorreu lá pelos saudosos idos da década de 1990. Finalzinho dela, na verdade, embora eu não saiba precisar o ano. Minha vó, que atualmente conta com 87 anos, foi quem relatou o episódio algumas vezes.
O meu quarto era o último da casa. Para chegar a ele, era preciso passar pela sala, corredor (onde existia o quarto dos meus avós ao lado), sala de jantar, cozinha e, finalmente, o meu quarto.
Certa madrugada comum, enquanto dormíamos, a minha vó viu um menino parado na cozinha. Ela não tinha dúvidas de que era uma criança, apesar da escuridão. Pensando ser eu, ela perguntou o que eu queria. Nisso, o ser saiu andando calmamente com destino ao meu quarto. Minha vó veio logo atrás, no encalço do espectro.
Ao acender a luz, acordando-me, ela perguntou o que eu queria na cozinha àquela hora da madrugada. Respondi, ainda com muito sono, que não fui à cozinha. Com a resposta, o semblante da velhinha tomou um aspecto amarelado. O sangue fugiu da sua face.
Até hoje, atento leitor, ela jura que viu algo de outro mundo, de outro plano. Afirma peremptoriamente que a silhueta que vira fora a de um ser sobrenatural. Mas, o que faria ele na cozinha da nossa casa, preclaro leitor? Estaria com sede? Era um ser que, por morrer com sede, veio em busca de saciar essa vontade material do homem? E se não fosse água, mas comida o que queria? Morrera de fome, por acaso?
E por que escolhera justamente a nossa residência para aparecer? E que horário inconveniente para visitas, não? Creio que morreremos sem saber a resposta para esse caso. Em todo caso, não creio que a mãe da minha mãe estivesse mentindo; mas creio que talvez possa ter alucinado por conta do sono. Não acredito que tenha sido uma aparição fantasmagórica, mas um devaneio confuso de uma senhora.
Em todo caso, por garantia, por não ter certeza se o caso era real, passei a verificar, antes de dormir, se não havia ninguém do outro mundo em baixo da minha cama ou dentro do meu roupeiro.
Esse caso deve ter por volta de trinta anos, mas não o esqueço, por conta da questão inusitada e pela falta de resolução dele. Talvez tenha sido uma aparição legitima de um espectro? Talvez… mas, como disse, jamais saberemos.
Não pretendo, amigo leitor, convencê-lo de que o sobrenatural existe; apenas apresento essa experiência e deixo a conclusão em aberto para você – como está para mim.
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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