A Companhia Ortaet de Teatro voltou ao Sesc Iguatu desta vez com o espetáculo “Neci”, monólogo encenado pela atriz Betânia Lopes. A apresentação lotou o teatro Sabino Antunes, nesta quinta-feira, 26, dentro da programação celebrativa dedicada ao Teatro e Circo, data comemorada, ontem, 27. O grupo vai pegar a estrada e se apresentar no Cariri.
A aposentada Luzia Felix ficou admirada com o trabalho. “O que foi apresentado aqui relembra a realidade que as pessoas viveram no passado, e, infelizmente, ainda presenciamos nos dias de hoje, dificuldades de atendimento de qualidade na área da saúde, violência contra homossexuais, agressão psicológica e patrimonial contra a pessoa idosa, além também de a gente sentir a imagem de uma mulher forte, que não se curvava para ninguém. Estão de parabéns a atriz Betânia e todo o grupo”, comentou. Luzia e outras pessoas que estavam na plateia foram convidadas a sentir como se estivessem na ‘cozinha’ da Neci, durante toda a apresentação.

Narrativa fantástica
O espetáculo mostra isso mesmo. Neci abre as portas de sua casa, recebe seus convidados na cozinha para uma conversa direta, enquanto faz café e bolinhos de ‘caco’. A interação com o público faz parte do contexto. É tanto que além de sentir o cheiro, o público é convidado a saborear o café e bolinhos feitos por Neci. Para Betânia, o espetáculo foi um presente dado por Aldenir Martins, que escreveu a peça, que tem a direção de José Filho. “Fico encantada com a inteligência de Aldenir. São recortes de coisas que vivenciava na minha infância, adolescência, no Barroso II, meu sitio lá em Quixelô, da própria Neci, e ela foi costurando tudo nessa narrativa fantástica. Sem contar na direção de José Filho”, destaca Lopes.
Durante a peça, e os causos da vida, que são apresentados por Neci, fazem lembrar de uma alguma figura, personagens que permeiam memórias, que sempre viveram a frente do seu tempo. A peça passa uma mensagem direta para a sociedade, que ainda vive o feminicídio, a homofobia, exploração e violência contra a pessoa idosa entre outras tantas violências. A dramaturga Aldenir Martins ressalta que além dos relatos pesquisados e sempre trazidos por Betânia, a peça busca fazer essa provocação junto ao público, além do humor característico do teatro cearense. “No nosso dia a dia, Betânia sempre trazia esses ‘insights’, e a gente sempre foi guardando e pensando: quem sabe um dia isso não dará uma peça? E deu”, comemora Aldenir, reafirmando a importância do trabalho social que também faz parte da identidade da Companhia Ortaet, em 27 anos, que serão completados agora em abril.

Resistência
“Levar o espetáculo para outras localidades, encontrar outros públicos é muito importante não só para o espetáculo, mas para a Cia Ortaet também, pois amplia nossa rede de afetos, parceiros ampliando alcance da nossa arte que o teatro para além dos limites de Iguatu”, relatou o encenador José Filho. “Estamos prestes a completar 27 anos de existência e estar aqui é reafirmar nosso papel e afirmar nossa luta de resistência dentro da cidade de Iguatu, porque fazer teatro no interior não é fácil. Teimar em existir é enfrentar diversos leões para fazer acontecer. Estamos na luta, uma luta que não para agora lutando por um espaço, estivemos com um local durante 16 anos, depois uma boa temporada com o Projeto Arte Criança, a quem somos gratos, mas estamos sem espaços, mas estamos lutando e persistindo para manter a arte viva, enquanto Companhia Ortaet, mas também como movimento de teatro da cidade de Iguatu”, pontou.
José Filho denuncia a triste realidade que o grupo enfrenta atrás de um espaço para poder guardar equipamentos, ensaiar e receber o público e companhias convidadas. “Estamos em busca desse sonho, ter um local que a gente possa dizer que é nosso para continuar desenvolvendo nossos projetos, que são tantos nesses tantos anos de luta e resistência”, destacou, agradecendo ao Sesc por contribuir com as ações de fruição cultural na cidade.



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