A chuva escorria pelas vidraças do Bar Saturno como dedos longos e trêmulos, e o neon vermelho da fachada tremulava sobre as mesas vazias, tingindo de sangue os copos e as garrafas. Àquela hora da noite, apenas dois homens permaneciam ali, cercados pelo cheiro acre de álcool, fumaça antiga e madeira úmida.
Augusto e Baltazar. Amigos havia mais de vinte anos. Tinham envelhecido juntos entre livros mofados, sebos decadentes e discussões literárias tão intensas quanto inúteis. Toda sexta-feira, invariavelmente, terminavam naquele mesmo bar, bebendo cachaça barata e discutindo autores mortos como quem fala de velhos conhecidos.
Naquela noite, porém, havia algo de estranho na atmosfera. Talvez fosse a tempestade. Talvez fosse o silêncio excessivo do garçom, um homem magro que limpava incessantemente o mesmo copo, sem jamais erguer os olhos. Ou talvez fosse o nome repetido tantas vezes entre eles: Edgar Allan Poe.
— Você insiste nesse sentimentalismo barato — resmungou Augusto, enchendo novamente o copo. — “O Corvo” é magnífico, admito. Mas não é o melhor conto do Poe. Nem de longe.
Baltazar soltou uma risada rouca.
— Não é um conto. É um poema.
— Pouco importa.
— Importa tudo — rebateu Baltazar, inclinando-se sobre a mesa. — A estrutura muda completamente. O ritmo, a repetição, o efeito psicológico…
Augusto ergueu a mão.
— E justamente aí está o problema. “O Corvo” depende demais da musicalidade. Da atmosfera. É quase hipnose. Já “O Gato Preto” não precisa disso. Ele entra na carne.
Baltazar acendeu um cigarro. A chama iluminou rapidamente seu rosto magro e cansado.
— Explique.
Augusto sorriu como um professor diante de um aluno ignorante.
— “O Gato Preto” é o horror humano em estado puro. Não há fantasmas de fato. Não há sobrenatural confirmado. Tudo pode ser culpa do alcoolismo, da culpa, da degeneração mental. O narrador é um homem comum que apodrece aos poucos.
Fez uma pausa, bebendo.
— Isso é o mais assustador. O horror possível.
Baltazar permaneceu imóvel.
— Continue.
— Veja a progressão psicológica. Primeiro ele ama os animais. Depois começa a beber. Então surge a perversidade gratuita. Poe chama isso de “espírito da perversidade”: a vontade de destruir apenas porque sabemos que é errado. Aquilo é genial. A chuva aumentou lá fora. O vento bateu contra a porta do bar com um gemido comprido.
Augusto prosseguiu:
— Quando ele arranca o olho do gato… aquilo não é só violência. É autodestruição moral. E depois o assassinato da esposa… meu Deus… a parede… o cadáver escondido… e o miado vindo de dentro da construção…
Baltazar sorriu.
— O final é excelente.
— Excelente? É monstruoso. Porque o homem destrói a si mesmo pela própria necessidade de confessar. O gato representa a culpa. O tempo todo. É um símbolo vivo.
Baltazar tragou lentamente.
— Ainda assim, “O Corvo” é superior.
Augusto riu.
— Pela melancolia teatral?
— Pela inevitabilidade.
O silêncio caiu entre eles. O garçom continuava limpando o mesmo copo. Baltazar então falou num tom mais baixo:
— “O Corvo” não é sobre um pássaro. É sobre a impossibilidade de escapar da dor […]
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História


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