A essa altura, estava claro que aquela figura idiossincrática estava envolta em mistérios; sua filosofia alicerçada aos grandes intelectuais da literatura e o seu modo de vida igualmente peculiar lhe conferiam uma atmosfera quase palpável. Senti um turbilhão de sentimentos enquanto conversávamos; sentimentos bons e ruins.
— O mundo esqueceu de mim. Virou as costas para mim. Na verdade, a vida me regurgitou ao mar. Hoje, sou o resultado das desventuras e das desgraças. Você, como eu, está nesse novo estágio das horas mortas: não fazer parte do mundo. Estamos alheios a ele, mesmo estando nele.
— E o que fazer quanto a isso, meu velho homem do mar? Se estou incluso nisso, e reconheço a condenação, preciso saber como proceder, não acha?
— Tanto faz o proceder, meu jovem. É uma maldição! Não há o que fazer. É aceitar o destino. Tenha o ‘‘amor pelo destino’’, como o filósofo alemão Nietzsche propôs; não há nada mais que possa ser feito.
Naquele instante, percebi que aquele homem falava com uma propriedade cruel, oriunda de um empirismo que devastou a sua vida. Seus olhos castanhos tinham um certo brilho, apesar de tudo, mas eram, no entanto, suplicantes, sofríveis.
Por alguns instantes, ninguém falou. Apenas o copo de vidro encontrou o balcão com um estalo seco, e o velho levou o olhar para um ponto qualquer do salão, como se observasse pessoas que já não estavam ali.
Lá fora, a chuva começava a tamborilar nas telhas de zinco. O letreiro da taberna piscava em intervalos irregulares, lançando sobre o ambiente uma luz amarelada que fazia as garrafas vazias parecerem pequenos túmulos de vidro.
— Sabe qual é a diferença entre você e eu? — perguntou ele, sem desviar os olhos daquele vazio.
— Não faço ideia.
— Você ainda sofre porque acredita que pode voltar.
Franzi a testa.
— Voltar para onde?
O velho sorriu. Não era um sorriso de alegria. Era um sorriso de quem acabara de reencontrar um cadáver conhecido.
— Para o mundo. Para as pessoas. Para aquela ilusão de que existe um lugar esperando por você. Não existe. O mundo não tem memória. Ele troca os homens como o mar troca as ondas. Uma desaparece e outra ocupa seu lugar sem que ninguém perceba.
Olhei para meu copo. A cerveja já perdera o colarinho e começava a adquirir o gosto morno do tempo.
— Então tudo acaba em esquecimento?
Ele respirou fundo.
— Não. Algumas coisas acabam em lembrança. E são essas que mais doem.
Foi a primeira vez, desde que nos conhecemos naquela noite, que sua voz vacilou.
A taberneira aproximou-se silenciosamente. Depositou outra garrafa de cerveja diante do velho e me lançou um olhar rápido, quase piedoso.
— Coloque na conta de sempre — disse ela. O velho apenas assentiu.
Quando a moça se afastou, inclinei-me sobre o balcão.
— Ela o conhece há muito tempo?
Ele demorou a responder.
— Há tempo suficiente para assistir à minha morte.
Olhei para ele, confuso.
— Mas você está vivo.
— Está vendo? É exatamente isso que quero dizer. Tomou toda a cerveja em um só gole.
— Existem mortes que o cemitério não registra.
O silêncio voltou a ocupar a mesa. Do outro lado da taberna, um homem adormecera abraçado a uma garrafa. Outro discutia sozinho, como se respondesse a ofensas invisíveis. Um rádio antigo, preso a um prego enferrujado, deixava escapar uma canção melancólica que parecia chegar de outra década. Era curioso. Todos ali pareciam suspensos no tempo. Não eram clientes. Eram náufragos.
Comecei a suspeitar que aquela taberna não vendia bebida. Vendia intervalos. Ali, as pessoas compravam algumas horas sem precisar existir.
— Posso lhe fazer uma pergunta? — arrisquei.
— Já está fazendo.
— O senhor sempre fala do mar. Diz que foi devolvido a ele. Mas nunca me disse se realmente foi marinheiro. Pela primeira vez desde o início da conversa, o velho desviou os olhos. Seu semblante endureceu. Os dedos apertaram o copo com tanta força que imaginei que o vidro fosse estilhaçar.
— Nunca fui marinheiro. Sou peixeiro. Fez uma pausa. Minha expedição é metafórica. Tudo é alegoria, meu caro!
— O mar nunca foi de água.
As palavras caíram sobre mim como uma porta se fechando. Ele levantou-se lentamente. Vestiu o velho casaco puído, colocou o chapéu e caminhou até a saída. Antes de cruzar a porta, voltou-se apenas o suficiente para que eu visse metade de seu rosto iluminado pelo letreiro.
— Há uma pergunta que você ainda não fez.
— Qual?
— Quem eu era antes das horas mortas.
Sem esperar resposta, empurrou a porta. O sino preso acima dela tilintou uma única vez. Quando saí logo atrás, a rua estava completamente vazia. A chuva continuava caindo. Mas do velho restava apenas o eco de suas palavras, dissolvendo-se na noite como se nunca tivesse existido.
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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