Há quem acredite que a história seja um automóvel, alegoricamente falando: basta acelerar e, inevitavelmente, chegar-se-á a um lugar melhor. Outros, mais prudentes, olham para a história como quem contempla uma velha árvore centenária. Sabem que seus galhos podem ser podados, que alguns ramos adoecem, que folhas secam e caem. Mas também sabem que destruir as raízes é condenar a árvore inteira.
Vivemos uma época em que a velocidade tornou-se uma virtude. Tudo precisa ser novo, revolucionário, disruptivo. O passado é frequentemente tratado como um museu de erros; a tradição, como um obstáculo ao progresso; a religião, como uma superstição inconveniente; a família, como uma instituição ultrapassada. Em meio a essa febre por novidades, o conservadorismo ergue a voz para fazer uma pergunta simples, mas profundamente incômoda: e se nem tudo o que é antigo merecer ser destruído?
É justamente aí que reside sua importância nos dias atuais. O conservadorismo não nasce do medo das mudanças, mas da consciência de que mudanças precipitadas costumam produzir consequências igualmente precipitadas. Ele parte da premissa de que a sociedade é uma obra construída lentamente por incontáveis gerações, e que aquilo que sobreviveu ao teste do tempo provavelmente contém uma sabedoria que não deve ser descartada levianamente.
Foi essa percepção que tornou Edmund Burke (1729–1797), o grande pai do conservadorismo moderno. Ao observar a Revolução Francesa, enquanto muitos intelectuais europeus celebravam a queda do Antigo Regime, Burke enxergou algo que poucos conseguiam ver: quando uma sociedade rompe violentamente com suas instituições, seus costumes e sua moral, o vazio dificilmente permanece vazio. Em seu lugar, frequentemente surgem o terror, o autoritarismo e a violência.
Sua obra mais célebre, Reflexões sobre a Revolução na França (1790), permanece extraordinariamente atual. Burke advertia que a liberdade só floresce quando acompanhada pela responsabilidade, pela tradição e pelo respeito às instituições. Sem esses pilares, a liberdade transforma-se em licença; e a licença, cedo ou tarde, converte-se em tirania.
Mais de um século depois, outro gigante daria continuidade a essa tradição intelectual: Michael Oakeshott (1901–1990). Diferentemente dos revolucionários, Oakeshott desconfiava das grandes teorias que prometem reorganizar completamente a sociedade. Para ele, governar é muito mais semelhante à navegação do que à engenharia. Não se constrói um navio em pleno oceano; aprende-se a conduzi-lo respeitando sua estrutura.
Em sua obra Racionalismo na Política, Oakeshott critica a ilusão de que toda a complexidade da vida humana possa ser reduzida a projetos ideológicos cuidadosamente desenhados em gabinetes acadêmicos. A experiência, os costumes e a tradição, dizia ele, contêm um conhecimento que nenhum plano racional consegue substituir integralmente.
Já Roger Scruton (1944–2020) talvez tenha sido a voz conservadora mais influente do final do século XX e início do XXI. Filósofo, escritor, músico e defensor apaixonado da cultura ocidental, Scruton acreditava que uma civilização não se sustenta apenas por suas leis, mas também por seus símbolos, sua arte, sua arquitetura, sua religião e seu senso de pertencimento.
Em livros como Como Ser Conservador e O Significado do Conservadorismo, Scruton recorda que amamos aquilo que conhecemos. É por isso que as pessoas cuidam de suas casas, de seus bairros, de suas igrejas e de sua pátria. O patriotismo, para ele, não era uma expressão de hostilidade contra outros povos, mas uma forma de gratidão para com a comunidade que nos formou.
Essa visão talvez seja a maior contribuição do conservadorismo para o mundo contemporâneo. Em tempos de identidades líquidas, relações descartáveis e instituições fragilizadas, ele recorda que nenhuma sociedade permanece saudável quando perde completamente a memória de quem é.
Isso não significa negar a necessidade de reformas. Burke jamais foi contrário às mudanças; ao contrário, reconhecia que sociedades incapazes de se reformar acabam entrando em decadência. O que ele combatia era a ilusão revolucionária de que se pode apagar séculos de experiência humana e começar tudo novamente a partir de uma folha em branco.
Essa lição continua pertinente. A política moderna, frequentemente dominada por discursos imediatistas, tende a oferecer soluções simples para problemas profundamente complexos. O conservadorismo responde com uma virtude cada vez mais rara: a prudência. Prudência para reconhecer os limites da razão humana. Prudência para compreender que instituições imperfeitas ainda podem ser preferíveis ao caos. Prudência para distinguir reformas necessárias de aventuras ideológicas.
O conservadorismo nos lembra de uma verdade que atravessa os séculos: uma civilização não é apenas aquilo que constrói, mas também aquilo que consegue preservar. As gerações passam. Os governos mudam. As ideologias surgem e desaparecem. Entretanto, valores como família, responsabilidade, liberdade acompanhada de dever, respeito às instituições, à cultura e à dignidade da pessoa humana permanecem como colunas que sustentam qualquer sociedade que deseje sobreviver ao tempo.
E, enquanto o mundo continua fascinado pelo brilho das novidades, o conservadorismo permanece repetindo uma antiga lição que a história insiste em confirmar: nenhuma casa permanece de pé quando se decide demolir seus alicerces apenas porque eles já são antigos.
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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