Serão necessários mais anos — talvez mais décadas — para esquecer aquela noite de fim de dezembro de 1991. Esse episódio fará trinta e cinco anos, quase quatro décadas, e nada de esquecê-lo. Era o início do verão escaldante nordestino. A noite seca e abafada fazia qualquer cristão suar excessivamente. A água do pote não saciava a sede de maneira alguma.
A noite, no entanto, com o céu de uma escuridão infinda, contrastava com o brilho vivo das estrelas, cobria a cidade com a sua beleza. A cidade dormia, com exceção de um ou outro ser errante que fora acometido pela boemia ou pela insônia. No meu caso, as duas coisas.
Na televisão, o presidente Fernando Collor, o ‘‘Caçador de Marajás’’, prometendo controlar também a inflação, com sua oratória sofisticada, ainda fascinava muitos pobres esperançosos. Minha vó, coitada, era uma das pobres almas iludidas. Nessa época, eu já duvidada do Estado, mesmo sem saber o que seria isso… Talvez eu apenas não acreditasse no homem, pra dizer bem a verdade, como até hoje não acredito.
No momento em que desliguei o aparelho, senti como que um grande frio percorresse a minha espinha. Olhei pela janela. Lá fora, um homem, que mancava e tinha algo semelhante a uma lâmpada na cabeça, passava pela rua revirando latas de lixo. Era barbudo, barba branca. Ao virar-se em minha direção, reparei que seus olhos brilhavam como a lâmpada em sua cabeça.
Quer ser estranho e surreal era aquele, afinal? Ninguém me acreditaria! A princípio, pensei que fosse apenas mais um catador de lixo. Havia muitos deles naquela época. Homens que a inflação mastigara e cuspira nas calçadas; sombras vivas que sobreviviam do que os outros desprezavam. Mas nenhum deles trazia uma luz acesa sobre a cabeça. Nenhum deles possuía olhos que pareciam feitos do mesmo material das estrelas.
Esfreguei os olhos. A lâmpada continuava lá. Era uma luz amarelada, fraca, mas constante, como a chama de um candeeiro protegida do vento por uma redoma invisível. Não havia fios, bateria, chapéu ou capacete. A lâmpada parecia brotar do próprio crânio daquele velho. Ele parou diante da lata de lixo da casa de seu João do Armazém.
Revirou papéis, cascas de frutas, uma caixa de fósforos vazia e uma revista velha cuja capa estampava o sorriso impecável de Collor. Olhou demoradamente para a fotografia, sorriu com um desprezo quase paternal e rasgou a revista em quatro partes perfeitamente iguais. Foi então que ergueu lentamente a cabeça. Nossos olhos se encontraram.
Senti um aperto no peito tão forte que minha respiração falhou por alguns segundos. Não era medo. Pelo menos não apenas medo. Era uma sensação difícil de explicar, como se aquele homem já me conhecesse havia muito tempo. Ele levantou uma das mãos e fez um discreto gesto para que eu saísse. Não um aceno. Um convite.
Olhei para trás, na esperança absurda de que houvesse outra pessoa na casa acordada. Minha avó roncava no quarto ao lado. O velho relógio de parede marcava duas horas e quinze minutos, embora o pêndulo parecesse bater muito mais devagar do que de costume.
Voltei à janela. O homem permanecia imóvel. Resolvi abrir a porta. O calor da rua me envolveu imediatamente, mas, curiosamente, ao aproximar-me dele, senti um frio semelhante ao de uma madrugada de julho. A diferença de temperatura era tão brusca que meus braços se arrepiaram.
— O senhor me conhece? — perguntei.
Ele sorriu. Os dentes eram poucos, porém perfeitamente alinhados.
— Conheço mais do que devia.
Sua voz era baixa, rouca, quase um sussurro. Parecia a voz de alguém que passara séculos sem conversar.
— Quem é o senhor?
— Isso depende do ano.
Franzi a testa.
— Como assim?
— Em alguns séculos fui chamado de profeta. Em outros, de louco. Houve quem me chamasse de santo. Houve quem preferisse dizer que eu era o Diabo. Mas nenhum acertou.
A resposta me pareceu tão absurda que dei um passo para trás. Foi quando notei algo ainda mais estranho. Apesar da luz da lâmpada, ele não projetava sombra alguma. Olhei para os meus pés. Minha sombra estava ali, desenhada pelo poste da esquina. A dele, não. O velho percebeu meu espanto.
— Está vendo agora?
— Vendo o quê?
— Que certas pessoas deixam de pertencer à luz… e também deixam de pertencer à escuridão.
Antes que eu pudesse formular outra pergunta, ele retirou do bolso do casaco um pequeno objeto envolto por um pano escuro. Estendeu-o em minha direção.
— Guarde isto.
— O que é?
— A lembrança que o tempo tentou apagar.
Desenrolei cuidadosamente o tecido. Era um relógio de bolso. Antigo. Pesado. A tampa trazia gravadas apenas três palavras: “Ainda não aconteceu.” Meu coração acelerou. Abri o relógio. Os ponteiros giravam para trás. E, por um breve instante, tive a nítida impressão de ouvir a voz do meu pai — morto havia quase dez anos — chamando meu nome do outro lado da rua.
Levantei os olhos imediatamente. O velho desaparecera. Não havia passos. Não havia portas abertas. Não havia qualquer esquina onde pudesse ter se escondido. Somente uma lâmpada acesa permanecia no meio do asfalto. Aproximei-me dela. Era uma lâmpada comum, dessas de sessenta watts. Ainda estava quente. Como se, poucos segundos antes, tivesse sido desenroscada da cabeça de alguém.
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

0 comentários