Teatro Pedro Lima Verde

05/08/2026

A Cleodon

Do prefeito Carlos Roberto Costa Filho, de Iguatu, veio a informação: o Teatro Pedro Lima Verde será reinaugurado, depois de significativos investimentos na reforma e reestruturação do prédio, situado na Praça Deusdedith Teixeira, no Alto do Jucá.

A um só tempo, fico feliz e honrado: a denominação do Teatro resultou de um projeto de Lei aprovado por este escriba à época de seu segundo mandato como vereador.
Filho de Péricles Gomes de Araújo e Dona Barreirinha, como carinhosamente se fez chamar por toda vida essa mulher adorável, Pedro foi ator de grande talento, morto, infelizmente, em início de uma carreira que seria brilhante.

Ainda que morando no Rio, onde galgava posição num meio artístico extremamente concorrido, Pedro e eu éramos muito amigos, e, lá ou aqui, nos encontrávamos sempre, quando menos para um cafezinho regado a impagáveis conversas sobre teatro, cinema, literatura e música popular brasileira. Assim, a tarde, quase sempre, passava sem que percebêssemos. A Arte a fazer de nós cúmplices incorrigíveis, como se convictos de que a beleza, bem na linha do que professou Dostoiévski, haveria de salvar o mundo.

A nossa amizade se estenderia a sua mãe, cuja vocação para a literatura, mesmo que tardiamente, pude acompanhar de perto. Por vezes Dona Barreirinha pedia que lesse originais do que viria a ser um belíssimo livro de contos, vazados em estilo sóbrio e marcados por um lirismo de cunho intimista, como a lembrar Lygia Fagundes Telles.
Numa das últimas vezes que nos vimos, Pedro e eu, foi em Iguatu, numa casa de sítio em que morávamos eu e Cleide Quixadá, minha mulher à época, ali pela localidade chamada Fomento, na estrada que leva à Penha.

Ainda me lembro: Pedro desceu do carro, à frente de casa, com uma pasta em que dizia conduzir uma preciosidade: eram uns rascunhos do que viria a ser um roteiro de filme, uma adaptação do conto “Cantiga de Esponsais”, de Machado de Assis.

— Querido Totonho, seja meu parceiro nessa empreitada, você que é o homem da literatura!, foi o que falou, entre risos.

Depois de botar em dia a saudade, matando-a a golpes de uísque (Pedro quase não bebia; eu, muito), sentamo-nos para discutir estratégias.

Escrito por Machado de Assis em 1884, o conto transcorre no ano de 1813, e narra a história do Mestre Romão Pires, um maestro de 60 anos que concebe harmonias habilmente em sua mente, sem contudo conseguir escrevê-las em partituras. Eis o conflito, a frustração a martirizar o homem.

Como se vê, a exemplo de quase tudo que veio da pena do bruxo de Cosme Velho, trata-se de um enredo de sondagem psicológica, desses que exigem um tratamento meticuloso para sair do papel e ganhar vida noutra linguagem, no caso a linguagem cinematográfica, como propunha o jovem homem de teatro que acabara de chegar.
Pedro queria da “adaptação” fidelidade; eu, imaginação. Pedro buscava plasticidade cênica, movimento; eu, densidade dramática, atmosfera machadiana.

Ao final de uma semana ou duas, não sei agora precisar, debruçados com entusiasmo sobre o desafio, chegara o dia de Pedro retornar ao Rio. Levou com ele o que, não sendo ainda um roteiro, tinha o formado de algo que, para ganhar corpo artístico, mais exigia um palco tradicional (tipo palco italiano) que locação de cinema. Mais texto teatral, que roteiro de filme. Não sei, a essa altura dos acontecimentos, sinceramente, onde foi parar o que fizemos juntos, que fim terá levado nossa única parceria autoral.
Pouco tempo se passou e Pedro Lima Verde, já em Fortaleza, morreria na sequência de uma agonia lenta. Não fui visitá-lo, pois soube ser esse o seu desejo em relação a pessoas amigas. Ademais, decorridos tantos anos, acho que foi melhor assim. Pedro está vivo em minhas recordações.

No momento em que sento para escrever esta coluna, mal dedilhando no teclado do celular o que vai aqui escrito, enquanto bebo um cafezinho numa loja de conveniência, posso ver sua imagem esguia e doce, seu jeito diferente de ser e de tocar a vida, seu sorriso terno e largo, sua postura em tudo tão digna — a camisa regata e o tênis velho a provar que elegância é coisa que se tem por dentro.

Voltemos ao Teatro que o homenageia.

Que esse espaço, para além de imortalizar o nome de Pedro Lima Verde, o conterrâneo ilustre, traga de volta a história perdida, e que os artistas da terrinha, assim como têm feito heroicamente, por anos a fio, possam desfrutar de condições dignas para fazer brilhar mais e mais sua arte, até aqui, como sabemos, feita de suor e sangue.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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