Encontro de velhos amigos

“A amizade salta o muro, o vale, o abismo do infinito”, Drummond.

29/08/2026

 

 

 

Dia desses, entre surpreso e indignado, precisei dos trabalhos de uma advogada, que nem sempre saem ao gosto do leitor as coisas que escrevo aqui. É que homens públicos, afeitos às conveniências e aos elogios fáceis, o mais das vezes insinceros e carregados de outras intenções, não sabem conviver com o contraditório. Não descerei a detalhes, que, por enquanto, não me convém, e nem seria de bom tom fazê-lo, assim, ao arrepio da ética e da correção de propósitos. Jornalismo literário, insisto, é o que sei e gosto de fazer.

Pois bem, precisando enfrentar o desconhecido, que no Brasil até a mais elementar obviedade legal ganha foros de improvável, liguei para uma amiga que tem se feito notar pela competência no campo do Direito Penal, e a conversa, cheirando a saudade, foi para além do previsto, das alternativas de ação e tecnicalidades jurídicas que o caso estava a pedir. Eram dois amigos, depois de muitos e muitos anos, revivendo, pelo expediente da memória e força das circunstâncias, pedaços de uma história que ajudaram a construir juntos, servidores dantanho de uma respeitável instituição federal de ensino.

Já a esta altura, devo registrar: Há pessoas que entram na sua vida, nos meandros de sua trajetória profissional, como é o caso, e ficam grudadas para sempre nas paredes da memória e das mais ternas lembranças. Umas porque tão-somente dividiram com você as mesmas tarefas, atravessando o tempo, ali, lado a lado, ganhando com o suor do rosto e a correção do labor o que vulgarmente dizemos ser o nosso pão de cada dia. Outras, à maneira de Fernando Pessoa, o poeta português, por suas qualidades de caráter. Algumas, pela falta dessas qualidades. Outras, ainda, por que apenas simpatizamos com elas, por razões muitas vezes simples e inusitadas: um jeito original de falar, de elaborar ideias, de expressar princípios, de afirmar convicções, mesmo quando negando a lógica e a racionalidade. Existem as tolas, as presunçosas, as insuportavelmente antipáticas. Aqui comigo, questão de consciência e gratidão, essas foram poucas, se existiram de fato. Na contramão desses atributos, felizmente, existem aquelas que, desde cedo, conquistam seu coração: são gentis e solidárias, elegantes, belas, no sentido mais inteiro da beleza: a beleza que não se pode ver com os olhos. E, claro, as fisicamente belas, os olhos e as curvas a quedar nas retinas. Neste sentido, natural, as muito feias — feias de chamar a atenção. E no entanto boas.

Pois bem, essa minha amiga, não sendo por certo uma unanimidade, que toda unanimidade é burra, como nos advertia Millôr Fernandes, um gênio de nossa inteligência, também ele exposto a juízos contraditórios, pertence a minha amiga a grupo especial. Com a evidência de possuir ela outras particularidades: uma fina ironia, por exemplo, dessas que desconsertam o interlocutor sempre que o interlocutor (a redundância é intencional) quiser dar uma de bacana, fingindo ser aquilo que não é. E outra além, que me ocorre lembrar com exemplar definição: minha amiga notabilizou-se por estar invariavelmente de bom humor, mesmo nos momentos difíceis, como tantas vezes teve de enfrentar: o preconceito, a incompreensão, o julgamento desprovido de qualquer bom sentimento e mínima isenção. Porta-se com altivez e graça, havendo nela um não-sei-quê da irreverência de Florbela Espanca, de Frida Kahlo, de Preta Gil, de Rita Lee. Essa, por sinal, é uma das qualidades que mais admiro em minha amiga, pois que nos ensinou, sem que nem mesmo soubesse, a desconsiderar a hipocrisia, a maledicência, a falta de cortesia de uma sociedade oblíqua e dissimulada tal qual os olhos de Capitu.

Na outra ponta da linha, como se dizia à época dos telefones fixos, minha advogada atendeu: “Diga, meu professor querido! Em que posso lhe servir?”

E era tanto o otimismo, tanta a espontaneidade e a segurança da profissional, tão doce e tão desinteressado o carinho, que quase nos esquecemos da razão por que nos falávamos depois de muitos e muitos anos. Confesso que me vieram à mente as palavras de minha mãe: “Não há males que não tragam um bem!”. É este o caso, pelo que, ao invés de me derrubar, elevou aos píncaros a minha dignidade e a minha satisfação, como escritor e como homem. Para não me alongar, abusando da paciência generosa do leitor, fico portanto por aqui, neste misto de desabafo e de crônica para cumprir pauta de jornal.

Ah, antes que outra vez me esqueça, minha amiga tem nome: Para estranhos, doutora Mariah Lopes. Para os amigos, foi e será sempre, Mariazinha, desse jeito, no diminutivo afetivo, que é profunda a minha afeição.

E é tão grande a mulher!

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
As Boas Mulheres da China
As Boas Mulheres da China

    Vejo no jornal estatística atualizada da violência contra a mulher no Brasil. São números assustadores. Há coisa de uns muitos anos, uma amiga de Piracicaba recomendou que eu lesse “As Boas Mulheres da China”, da jornalista Xinran. Passado tanto tempo,...

Adeus a Cely
Adeus a Cely

“… a saudade dói como um barco/que aos poucos descreve um arco/e evita atracar no cais” (Chico Buarque) A última vez que nos vimos, faz algum tempo, foi num encontro casual, ela chegando e eu saindo de um shopping da cidade. Me falou sobre o que faria ali: “Vim à...

Teatro Pedro Lima Verde
Teatro Pedro Lima Verde

A Cleodon Do prefeito Carlos Roberto Costa Filho, de Iguatu, veio a informação: o Teatro Pedro Lima Verde será reinaugurado, depois de significativos investimentos na reforma e reestruturação do prédio, situado na Praça Deusdedith Teixeira, no Alto do Jucá. A um só...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *