Sobre a miserável mediocracia intelectual contemporânea – final

05/09/2026

 

 

O leitor contemporâneo quer conforto. Quer personagens que confirmem suas virtudes, vilões que correspondam aos seus inimigos e histórias que possam ser resumidas em três linhas. Tudo precisa ser mastigado. Tudo precisa ser rápido. Tudo precisa caber numa legenda. E, se uma obra exige esforço, o problema passa a ser da obra. “Não gostei.” Claro que não.

Uma janela também não agrada a quem prefere viver olhando para a própria parede. O mais assustador, entretanto, não é a ignorância. Ignorar alguma coisa é perfeitamente humano. O problema é a arrogância de quem ignora e, ainda assim, se comporta como autoridade. O homem que diz “não sei” ainda pode aprender. O homem que diz “eu já sei” sem jamais ter estudado está praticamente condenado.

A ignorância humilde pode ser curada. A ignorância orgulhosa constrói monumentos. E nós estamos cercados deles. São os comentaristas de tudo. Os especialistas universais. Os homens que possuem opinião sobre física quântica, geopolítica, literatura russa, economia, filosofia alemã, comportamento feminino, masculinidade, inteligência artificial, história romana e futebol — tudo isso entre o café da manhã e o almoço. Não sabem quase nada. Mas sabem falar.

E hoje falar parece valer mais do que saber. O silêncio do homem culto perdeu espaço para a segurança do imbecil eloquente. Talvez porque o homem verdadeiramente culto tenha aprendido uma coisa que o medíocre jamais compreenderá: quanto mais você sabe, mais percebe o tamanho monstruoso daquilo que ignora.

Depois de ler muito, você desconfia. Depois de pensar muito, você hesita. Depois de estudar história, você perde a facilidade de chamar todos os seus adversários de monstros e todos os seus aliados de santos. Depois de conhecer filosofia, você descobre que quase nenhuma pergunta importante possui resposta simples. Depois de ler literatura de verdade, você descobre que o ser humano é muito mais contraditório, miserável, grandioso, cruel e ridículo do que qualquer discurso político consegue admitir.

Mas a mediocracia não suporta complexidade. Ela precisa de mocinhos. Precisa de bandidos. Precisa de frases. Precisa de certezas. Precisa de inimigos. E, acima de tudo, precisa acreditar que pensar é escolher um lado. Não é. Pensar é justamente a capacidade de permanecer diante de uma ideia sem imediatamente transformá-la em bandeira. É suportar a dúvida. É permitir que uma leitura destrua uma convicção antiga. É ter coragem de dizer: “Eu estava errado.”

Essa talvez seja a frase mais rara de nosso tempo. Porque o sujeito contemporâneo não quer ter razão. Ele quer parecer que tem razão. E essa diferença explica boa parte da miséria intelectual que nos cerca. Há uma espécie de analfabetismo sofisticado em circulação: pessoas que sabem escrever, sabem falar, sabem publicar, sabem compartilhar, sabem argumentar — mas não sabem pensar.

Possuem informação em abundância e inteligência em escassez. Possuem acesso a bibliotecas inteiras no bolso e, ainda assim, vivem intelectualmente como camponeses medievais trancados numa aldeia, repetindo os mesmos rumores uns para os outros. O século XXI entregou ao homem acesso quase ilimitado ao conhecimento. E ele decidiu usar isso para assistir a vídeos de quarenta segundos sobre pessoas brigando.

Talvez seja essa a grande tragédia. Nunca tivemos tantos meios de conhecer. E nunca foi tão fácil escolher não conhecer. A mediocracia não é a ausência de inteligência. É algo pior. É a celebração da insuficiência. É transformar ignorância em orgulho, superficialidade em virtude, opinião em conhecimento e convicção em argumento. É olhar para uma biblioteca e perguntar: “Tem algum resumo disso?”

E talvez seja por isso que os grandes livros continuam tão necessários. Eles não nos tornam automaticamente inteligentes. Mas nos lembram, página após página, de que somos muito mais estúpidos do que imaginamos. E essa descoberta — desagradável, humilhante e magnífica — talvez seja o primeiro sinal de inteligência. O resto é apenas barulho.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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