A 200 metros

18/11/2023

Num momento em que se usam eufemismos os mais cínicos para edulcorar o que faz o Estado sionista a milhares de civis, mulheres e crianças, perversamente destroçados na Faixa de Gaza, a pretexto de conter o terrorismo do Hamas, só mesmo a arte pode deitar luz sobre o que, em essência, é a mais definitiva ação de limpeza étnica levada a efeito por Israel.

Não há uma guerra contra o Hamas, forma desonesta de tentar esconder o que de fato vem ocorrendo na Faixa de Gaza. Não há uma (re)ação de autodefesa, tampouco o enfrentamento de forças equivalentes em motivações e verdades. O que existe é o confronto entre um Estado racista e colonial contra um povo que luta por libertação, direito à terra em que vive, à cultura pela qual se conduz sua sociedade, pela preservação de sua identidade e sua língua.

A solução, todos sabem, mesmo aqueles que estão empenhados em justificar o injustificável, é a formação do Estado palestino, com o reconhecimento de seus direitos como território autônomo e verdadeiramente livre.

Não há outro caminho, não existem outras alternativas de ação.

Contudo, não é esta a minha matéria, não é este o campo de debate a que tenho me dedicado diuturnamente, mas não há silêncio honesto em se tratando do massacre a que estão submetidos os palestinos na Faixa de Gaza, fruto da ganância expansionista de Israel e da política de extrema direita do governo de Netanyahu.

Mas é sobre arte que gostaria de falar, e o farei aqui.

Disponível na Netflix o delicadíssimo “A 200 metros”, filme que concorreu ao Oscar 2020 como representante da Jordânia. A trama gira em torno das dificuldades de um pai para ter acesso ao filho, hospitalizado em decorrência de um atropelamento.

Mustafa (interpretado à perfeição por Ali Suliman), como se chama, vive na Cisjordânia, a mulher e os filhos em Israel. Suas casas estão separadas, pelo muro, a uma distância de 200 metros. É sob essa atmosfera emocional, na qual se alternam momentos de ternura e tensão claustrofóbica, que o cineasta estreante Ameen Nayfeh, que também assina o roteiro, explora esteticamente a matéria com que realizou uma pequena obra-prima do cinema contemporâneo. Trata-se, pois, de um filme temático, com sutis intervenções críticas sobre a realidade vivida pelos palestinos na fronteira com Israel. Essa sutileza, a revelar a sensibilidade do artista estreante, confere ao filme, enquanto obra de arte, uma dignidade que se sobrepõe a qualquer intenção meramente política.

O filme, assim, transcorre com equilíbrio e ritmo adequado, e as soluções de linguagem encontradas pelo diretor extrapolam o corriqueiro em narrativas do gênero. Tudo é muito simples, mas nunca simplório, e a beleza do filme se dá a ver sem que a sua densidade dramática perca destaque.

Se é verdade que a motivação central da obra é o problema geopolítico, que traz à pauta uma discussão muitíssimo atual, não é menos verdade o que se passa em termos artísticos diante do espectador: as imagens são compostas com apuro visual tamanho, que mesmo as sequências mais violentas observam critérios formais elegantes  — os movimentos e angulações de câmera são perfeitos, o quadro bem definido, e os recursos de iluminação e som usados em absoluta sintonia com o que ocorre às personagens.

O que poderia ser um filme “panfletário”, assumidamente enfático em apoio à causa palestina, é antes uma obra construída em bases narrativas de elevado padrão estético, e o resultado final da produção agrada mesmo àqueles que veem em perspectiva tortuosa o que vem acontecendo hoje no Oriente Médio.

As sequências mais tensas, pontuadas pelos conflitos culturais entre as personagens envolvidas, são exemplo da fina compreensão do que é essencial do ponto de vista cinematográfico, lembrando em muito os belos filmes de Abbas Kiarostami: passam-se dentro de uma vã, e é nesse espaço exíguo que se depara com a discussão mais aguda dos problemas regionais. Não é muito dizer que a essa altura da narração fílmica a obra ganha intensidade dramática, e os conflitos entre israelenses e palestinos colocam-se com clareza aos olhos do espectador. Mas são as estratégias narrativas que ditam o discurso fílmico, dando realce no percurso da fábula ao que existe de simbólico e sugestivo: a câmera desenha o perfil psicológico de cada um. Não há lágrimas, emoções gratuitas, sentimentalismos vãos. Sob medida, o que se vê é a denúncia do lado monstruoso do mundo, e o muro da incomunicabilidade entre os homens.

Ao fim e ao cabo, assistir ao filme de estreia de Ameen Nayfeh é uma experiência agradável, ainda que o seu leitmotiv sustente-se em um tema historicamente pesado e por diferentes perspectivas inquietante, sobretudo agora, quando está em curso um confronto que prende, tortura e mata com requintes de crueldade poucas vezes constatados ao longo da grande História.

Não deixe de ver.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Lembrar para jamais esquecer
Lembrar para jamais esquecer

    Vez e outra, vejo na rede social posts do secretário de Cultura de Iguatu, Honório Barbosa, com informações importantes sobre ruas, logradouros, prédios públicos e coisas e tais, iniciativas que visam a resgatar a memória perdida de nossa cidade. Faz...

Encontro de velhos amigos
Encontro de velhos amigos

      Dia desses, entre surpreso e indignado, precisei dos trabalhos de uma advogada, que nem sempre saem ao gosto do leitor as coisas que escrevo aqui. É que homens públicos, afeitos às conveniências e aos elogios fáceis, o mais das vezes insinceros e...

As Boas Mulheres da China
As Boas Mulheres da China

    Vejo no jornal estatística atualizada da violência contra a mulher no Brasil. São números assustadores. Há coisa de uns muitos anos, uma amiga de Piracicaba recomendou que eu lesse “As Boas Mulheres da China”, da jornalista Xinran. Passado tanto tempo,...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *