A chuva caía fina sobre a cidade de Fortaleza, transformando as luzes dos postes em halos trêmulos. No interior do escritório 307 do Edifício Atlântico, Eliarde Evan observava uma fotografia espalhada sobre a mesa. A mulher na imagem usava óculos escuros grandes demais para o rosto delicado e sorria como quem guarda segredos atrás dos dentes.
Vanessa Iana.
Era o nome que constava nos relatórios da Receita e nas anotações anônimas que chegaram até ele. Contrabando de perfumes importados. Frascos franceses e italianos entrando no país por rotas tortas, revendidos como joias invisíveis. Nada de armas, nada de drogas — apenas fragrâncias. Ainda assim, crime.
Eliarde passou a mão pelos cabelos grisalhos nas têmporas. Havia algo naquele rosto que o inquietava.
Não era só a suspeita.
Era memória.
Ela surgira meses antes no radar da polícia federal, mas foi ele quem aceitou o caso como investigador particular. Um empresário local, prejudicado pela concorrência ilegal, queria provas. Eliarde era conhecido pela discrição e pela teimosia elegante com que perseguia a verdade.
Seguiu Vanessa por semanas. Do porto às lojas discretas do centro. Dos encontros noturnos em estacionamentos aos cafés onde ela jamais ficava de costas para a porta.
Numa noite de sexta-feira, decidiu aproximar-se.
Ela estava sentada sozinha no Café Mirante, usando um vestido azul-marinho e o mesmo perfume que impregnava as caixas apreendidas — jasmim com fundo amadeirado.
— Posso? — ele perguntou, apontando para a cadeira.
Ela ergueu os olhos.
E o mundo de Eliarde sofreu um deslocamento sutil.
Aqueles olhos.
Verdes, com um risco dourado na íris esquerda.
— Você sempre foi direto assim, Eliarde? — ela disse, retirando lentamente os óculos.
O nome dele não era público.
O coração do investigador bateu como um punho na porta da memória.
— Alana? — sussurrou.
O nome escapou antes que ele pudesse impedir.
Alana Isidora fora seu amor na juventude. Vinte anos antes, desaparecerá sem explicações, deixando apenas uma carta vaga e o cheiro de um perfume barato na despedida.
Ela sorriu, mas o sorriso não alcançou os olhos.
— Eu me perguntei quanto tempo levaria para você perceber
Alana — ou Vanessa — não negou o contrabando. Falou dele como quem descreve um negócio qualquer.
— Perfumes são sonhos engarrafados, Eliarde. Eu só os ajudo a atravessar fronteiras.
— Você está cometendo um crime.
— E você está me caçando.
O silêncio entre os dois era pesado, carregado de passado.
Ela contou que fugira anos antes após envolver-se com um homem ligado ao esquema internacional. Dívidas, ameaças, passaportes falsos. Para sobreviver, tornara-se peça-chave da operação.
— Eu nunca quis que você me visse assim — disse, com um lampejo de vulnerabilidade.
Eliarde sentiu o conflito apertar-lhe o peito. O dever de investigador contra o eco do amor antigo.
— Eu posso te ajudar — ele afirmou. — Entregue os chefes. Faça um acordo. Ainda há saída.
Ela desviou o olhar […]
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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