A contrabandista – parte 1

21/02/2026

 

A chuva caía fina sobre a cidade de Fortaleza, transformando as luzes dos postes em halos trêmulos. No interior do escritório 307 do Edifício Atlântico, Eliarde Evan observava uma fotografia espalhada sobre a mesa. A mulher na imagem usava óculos escuros grandes demais para o rosto delicado e sorria como quem guarda segredos atrás dos dentes.

Vanessa Iana.

Era o nome que constava nos relatórios da Receita e nas anotações anônimas que chegaram até ele. Contrabando de perfumes importados. Frascos franceses e italianos entrando no país por rotas tortas, revendidos como joias invisíveis. Nada de armas, nada de drogas — apenas fragrâncias. Ainda assim, crime.

Eliarde passou a mão pelos cabelos grisalhos nas têmporas. Havia algo naquele rosto que o inquietava.

Não era só a suspeita.

Era memória.

Ela surgira meses antes no radar da polícia federal, mas foi ele quem aceitou o caso como investigador particular. Um empresário local, prejudicado pela concorrência ilegal, queria provas. Eliarde era conhecido pela discrição e pela teimosia elegante com que perseguia a verdade.

Seguiu Vanessa por semanas. Do porto às lojas discretas do centro. Dos encontros noturnos em estacionamentos aos cafés onde ela jamais ficava de costas para a porta.

Numa noite de sexta-feira, decidiu aproximar-se.

Ela estava sentada sozinha no Café Mirante, usando um vestido azul-marinho e o mesmo perfume que impregnava as caixas apreendidas — jasmim com fundo amadeirado.

— Posso? — ele perguntou, apontando para a cadeira.

Ela ergueu os olhos.

E o mundo de Eliarde sofreu um deslocamento sutil.

Aqueles olhos.

Verdes, com um risco dourado na íris esquerda.

— Você sempre foi direto assim, Eliarde? — ela disse, retirando lentamente os óculos.

O nome dele não era público.

O coração do investigador bateu como um punho na porta da memória.

— Alana? — sussurrou.

O nome escapou antes que ele pudesse impedir.

Alana Isidora fora seu amor na juventude. Vinte anos antes, desaparecerá sem explicações, deixando apenas uma carta vaga e o cheiro de um perfume barato na despedida.

Ela sorriu, mas o sorriso não alcançou os olhos.

— Eu me perguntei quanto tempo levaria para você perceber

Alana — ou Vanessa — não negou o contrabando. Falou dele como quem descreve um negócio qualquer.

— Perfumes são sonhos engarrafados, Eliarde. Eu só os ajudo a atravessar fronteiras.

— Você está cometendo um crime.

— E você está me caçando.

O silêncio entre os dois era pesado, carregado de passado.

Ela contou que fugira anos antes após envolver-se com um homem ligado ao esquema internacional. Dívidas, ameaças, passaportes falsos. Para sobreviver, tornara-se peça-chave da operação.

— Eu nunca quis que você me visse assim — disse, com um lampejo de vulnerabilidade.

Eliarde sentiu o conflito apertar-lhe o peito. O dever de investigador contra o eco do amor antigo.

— Eu posso te ajudar — ele afirmou. — Entregue os chefes. Faça um acordo. Ainda há saída.

Ela desviou o olhar  […]

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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