A contrabandista – final

28/02/2026

 

Resumo da parte 1: Sob a chuva de Fortaleza, o investigador Eliarde Evan descobre que a contrabandista de perfumes Vanessa Iana é, na verdade, Alana Isidora, seu amor desaparecido do passado. Dividido entre o dever e o sentimento, ele tenta convencê-la a entregar os chefes do esquema internacional e recomeçar. O reencontro transforma a caçada policial em um doloroso confronto entre justiça e amor.

 

Na semana seguinte, Eliarde reuniu provas suficientes para derrubar a rede. Mas algo estava errado. Havia movimentações estranhas no porto. Informantes sumindo. Silêncios bruscos nas escutas.

Alana marcara um encontro final.

No antigo armazém 12, à beira-mar.

— Eu decidi aceitar sua ajuda — disse ela, quando ele chegou. — Tenho documentos. Nomes. Contas bancárias.

Ela entregou-lhe um pen drive.

Antes que ele pudesse responder, faróis cortaram a escuridão. Três carros.

Homens armados desceram.

O chefe do esquema surgira pessoalmente.

— Traidora — rosnou ele.

O tiroteio começou como um trovão seco.

Eliarde puxou Alana atrás de uma pilha de caixotes. O cheiro de pólvora misturou-se ao perfume dela.

Ele atirava com precisão calculada, anos de experiência guiando cada movimento. Dois homens caíram. Um terceiro fugiu.

Mas o chefe avançava.

Alana, com um gesto súbito, empurrou Eliarde para o lado quando o disparo ecoou.

O som foi único, definitivo.

O corpo dela estremeceu.

O tiro que seria dele encontrou o peito dela.

Eliarde reagiu em reflexo, atingindo o agressor no ombro. A polícia, alertada previamente por ele, chegou minutos depois. O esquema caiu naquela noite.

Mas no chão do armazém, sob a luz fria das sirenes, Alana respirava com dificuldade.

— Parece… que eu finalmente atravessei a fronteira certa — ela sussurrou, um fio de sangue no canto da boca.

— Não fale — ele implorou.

Ela tocou o rosto dele com dedos já frios.

— Você sempre foi o melhor homem que conheci… Fico feliz… que tenha vencido.

Um último suspiro.

E o perfume de jasmim pareceu dissolver-se no ar.

Meses depois, Eliarde estava novamente no escritório 307. O caso lhe rendera reconhecimento, contratos novos e uma inesperada proposta para integrar oficialmente uma força-tarefa federal.

Aceitou.

Na prateleira, mantinha um único frasco apreendido naquela noite. Não como troféu — mas como lembrança.

Alana Isidora fora criminosa.

Fora traidora.

Fora seu amor.

E no instante final, escolhera salvá-lo.

Eliarde abriu a janela. O vento da tarde entrou suave, espalhando pela sala um leve traço de jasmim imaginado.

Ele sorriu, não de tristeza, mas de compreensão.

Algumas histórias terminam com justiça.

Outras, com redenção.

A dele terminara com ambas.

E, pela primeira vez em muitos anos, Eliarde Evan sentiu-se em paz.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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