Ler um clássico é como atravessar um espelho: não entramos apenas em outra história, mas em outra dimensão da condição humana. Há livros que se esgotam com a última página, outros que servem de passatempo agradável, mas os grandes clássicos, esses jamais se encerram. Eles nos acompanham, crescem conosco, dialogam com nossas dúvidas mais íntimas. É por isso que, em meio à pressa dos dias atuais, ainda se faz tão necessário abrir as páginas de Dostoiévski (1821-1881) ou Tolstói (1828-1910), dois gigantes da literatura russa que ergueram, com palavras, catedrais da alma.
Em Crime e Castigo, Dostoiévski nos leva pelas ruas sombrias de São Petersburgo, onde Raskólnikov, um jovem estudante, tenta justificar um assassinato em nome de uma teoria. Mas o que se desenrola não é apenas a narrativa de um crime: é uma descida vertiginosa ao abismo da culpa, da consciência e da redenção. O leitor, diante do tormento de Raskólnikov, é chamado a refletir sobre suas próprias justificativas, suas escolhas silenciosas, sua própria moral. É como se Dostoiévski nos perguntasse: até onde você iria para defender uma ideia? E mais: qual o peso de um erro que a consciência insiste em relembrar?
Já em A Morte de Ivan Ilitch, Tolstói conduz sua pena com uma sobriedade devastadora. Aqui não há crimes de sangue, mas o crime mais comum e silencioso: o de uma vida vivida de forma superficial, regida pelas convenções sociais, pela vaidade e pela busca de uma respeitabilidade vazia. Quando Ivan Ilitch se depara com a morte, sua existência inteira se desnuda diante de si mesmo. O leitor não escapa: a leitura é um espelho que reflete a pergunta que todos evitamos — como estamos vivendo? E quando a hora final chegar, será que poderemos dizer que nossa vida teve autenticidade?
Dostoiévski e Tolstói não oferecem respostas fáceis. Eles não servem como entretenimento descartável. Ao contrário: incomodam, questionam, perturbam. Mas é justamente nesse desconforto que reside a grandeza dos clássicos: obrigam-nos a sair da zona de conforto, a refletir sobre a essência da vida, sobre a dor, a culpa, a morte, o sentido.
Em tempos em que a leitura muitas vezes se reduz a fragmentos de redes sociais ou a romances que se evaporam na memória, voltar aos clássicos é um ato de resistência cultural e espiritual. Não é apenas uma questão de erudição, mas de profundidade: Dostoiévski e Tolstói nos lembram que a literatura pode ser mais do que lazer; ela é uma ferramenta de autoconhecimento e até de transformação.
Ler os russos, portanto, é como sentar-se diante de um espelho que não distorce, mas revela. E quem se atreve a enfrentá-los, dificilmente sai o mesmo.
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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