A lamparina tremulava no canto do quarto, lançando sombras irregulares sobre a estante. Jessé permaneceu imóvel por alguns minutos, encarando os livros como quem encara antigas versões de si mesmo. Cada lombada parecia guardar um tempo em que ele ainda era inteiro. Agora, restava-lhe apenas o eco.
Estendeu a mão trêmula e puxou um dos volumes ao acaso. Era um caderno antigo, de capa gasta. Não era um livro — era seu. Um diário esquecido. Abriu-o.
As primeiras páginas estavam repletas de anotações apressadas, nomes, datas, encontros. Mulheres. Lugares. Risos. Excessos. Vida. Folheou mais adiante. Aos poucos, as palavras foram rareando. As frases tornaram-se curtas. Depois, quase inexistentes. Como se sua própria existência tivesse ido se apagando ali, linha por linha.
Parou em uma página específica. “Hoje ela chorou. Disse que eu não sabia amar.”
Jessé franziu o cenho. Não havia nome. Mas havia uma memória. Uma entre tantas — e, ao mesmo tempo, diferente. Fechou os olhos.
Veio-lhe à mente o rosto dela, não com nitidez, mas com sentimento. Os olhos marejados. A mão que tentou segurá-lo antes que ele se levantasse da mesa, impaciente, rindo, fugindo — como sempre fazia. Fugindo de qualquer coisa que parecesse permanência.
— Eu não sabia… — murmurou, com a voz embargada.
O silêncio do quarto pesou sobre ele.
Um acesso de tosse o interrompeu. Forte. Violento. Levou a mão ao peito, tentando conter o ar que lhe faltava. Quando a crise cessou, estava mais fraco. Muito mais.
A lamparina vacilou. Do outro lado da casa, ouviu o leve arrastar de passos. Sua mãe ainda estava acordada. Por um instante, Jessé pensou em chamá-la. Mas não o fez. Havia algo que precisava enfrentar sozinho.
Olhou novamente para o diário. Depois, para o teto. Depois, para dentro. “Esperei demais”, pensou. Levantou-se com esforço. Cada movimento parecia custar-lhe um pedaço de vida. Caminhou até a janela. Abriu-a. A noite estava serena. Um vento suave entrou no quarto, trazendo consigo um cheiro distante de terra e lembrança. Jessé fechou os olhos e respirou fundo — talvez pela última vez sem dor.
— Eu vivi errado… — sussurrou, não com desespero, mas com uma estranha serenidade. Não era uma revolta. Era constatação. A vida lhe dera tudo: juventude, vigor, liberdade. E ele, por escolha ou ignorância, nunca parara para sentir o que realmente importava. Agora, no fim, compreendia — não com a mente, mas com a ausência.
Sentou-se na beira da cama. Seus olhos se encheram d’água pela primeira vez em muito tempo.
— Mamãe… — chamou, quase inaudível.
Dona Alzira apareceu à porta, assustada, mas sem surpresa. Como se já soubesse.
— Estou aqui, meu filho.
Ela caminhou até ele e segurou suas mãos. Eram frias.
— A senhora… fica comigo um pouco?
— Até o fim — respondeu, com firmeza.
Jessé apoiou a cabeça no ombro da mãe, como fazia quando criança. O tempo, por um instante, pareceu se curvar.
— Eu tive medo de viver direito… — disse ele, com dificuldade. — E agora… tenho medo de morrer sem ter vivido de verdade. A velha acariciou seus cabelos ralos.
— Ninguém vive como acha que deveria, meu filho. Mas todo arrependimento sincero… já é um começo. Jessé sorriu, fraco.
— Tarde demais para começos, não acha?
Ela não respondeu de imediato. Apenas apertou suas mãos.
— Nunca é tarde para o essencial.
O silêncio voltou, mas agora era diferente. Não era vazio. Era presença. A respiração de Jessé começou a falhar. Seus olhos, antes inquietos, tornaram-se calmos. Ele olhou uma última vez para o quarto — para os livros, para a janela, para a vida que não voltaria. E então, como quem finalmente compreende algo simples demais para ser dito, sussurrou:
— Eu só queria ter amado… de verdade.
Dona Alzira fechou os olhos, deixando uma lágrima silenciosa escorrer.
— Eu sei, meu filho… eu sei.
Jessé respirou fundo uma última vez.
E então, cessou. A lamparina, que ainda lutava contra o escuro, apagou-se suavemente.
Naquela noite, não houve grito. Não houve desespero. Apenas o silêncio digno de um homem que, no último instante, encontrou aquilo que lhe faltou por toda a vida: a verdade. E, ainda que tarde, ela o encontrou.
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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