Apolo e Dionísio

07/03/2026

 

 

Durante uma aula de Estética, depois de expor os tipos de personagens examinados por E. M. Forster, no seu “Aspectos do Romance”, supostamente inspirados nas categorias nietzschianas do “apolíneo” e do “dionisíaco”, entre intelectualmente abduzida e curiosa, uma aluna quer saber: “O senhor é apolíneo ou dionisíaco?” Antes de responder à pergunta inusitada, brinco, como a dispensar formalidades: “Você está se referindo a Deus?” Meio sem graça e sem lugar para colocar as mãos, a garota retoca a pergunta: “Você…”. E tento atender-lhe a curiosidade, que, vai ver, tem alguma função didática neste instante.

Sou um apolíneo incoerente, pois, não raro, escorrego para o dionisíaco.

A sala inteira ri.

É isto mesmo: pela formação acadêmica e pelo senso de organização com que me conduzo no trabalho e na vida pessoal, que às vezes beira o metódico suportável, ando em linha reta, sob a luminosidade de Apolo, reconhecível nas atitudes e no pensamento; pelo amor à Arte, pelo potencial criativo e pela vocação para o teatro e a literatura, inclino-me para o imprevisível, e não raro surpreendo com subjetivações ousadas.

Sim. A sensibilidade aflorada, a passionalidade intensa, a inclinação para o poético, o pendor para enxergar a vida com lirismo, fazem de mim um “esférico” que lida bem com o seu contrário, timidamente “plano” e sóbrio.

Desse modo, horas há em que fico ali, introspectivo, meio que cofiando o bigode que já não tenho; horas há em que estouro, entusiasmado qual um demônio do bem. Explosivo. Ostensivo. Irrequieto. Audaz. Destemido. Ciclotímico. Voilà: dionísiaco!

Na contramão das simplificações teóricas, há em mim um deus “plano” e um diabinho “redondo”. E não foi o diálogo dos dois convincentemente professado por Nietzsche em “O nascimento da tragédia”?

Eis o homem, pois.

Fim do mês, contarei 70, e, por inevitável, vem a inquietante percepção: o tempo que me resta é pequeno em face do tempo que vivi. A vida, não. A curva da estrada, de que nos falou Pessoa, o poeta português, em metáfora desconcertante sobre a morte, já se pode ver, com seu silêncio e sua incompreendida escuridão.

Há tanto o que fazer, no entanto, pela benevolência de Deus, que piso firme o pedaço de chão que me resta, e os olhos, cheios de fé e esperança, ainda se projetam para o horizonte, enquanto a tarde cai, serena, bela, inexplicável; porque, se anunciando o chegar da noite, também as luzes da antemanhã, convite aos encantos do dia que virá.

Se Apolo equilibra-se no improvável, Dionísio, a lembrar Drummond, salta o muro, o vale, o abismo do infinito.

E a vida segue, desafiadora e apaixonante, passo de garça, como a mulher bonita que, à distância, vejo agora atravessar a rua.

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Os Sonhadores*
Os Sonhadores*

    “Vem, vamos embora/Que esperar não é saber/Quem sabe faz a hora/Não espera acontecer”. Os versos, extraídos da letra da canção ‘Pra não dizer que não falei de flores’, composta por Geraldo Vandré, em 1968, constituem o estribilho que chamou à luta os...

O vinho, o voto e a verdade
O vinho, o voto e a verdade

    “Poetas, seresteiros, namorados, correi!/ É chegada a hora de escrever e cantar,/ talvez as derradeiras noites de luar”!   Os versos acima são de Gilberto Gil, e foram extraídos da letra de Lunik 69, que faz referência à ambição do homem norte-americano...

Tristes Partidas
Tristes Partidas

    Num momento tão delicado da vida nacional, estando o país sob ameaças concretas de trágico retrocesso político e desconstrução do Estado Democrático de Direito, é lamentável que dois grandes nomes da cultura brasileira tenham nos deixado: Aracy do Amaral...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *