Cangaceiro vs Michel

04/04/2025

Kleyton Bandeira Cantor, compositor e pesquisador cultural

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural

Você sabe quem é Oswaldo Sargentelli?

Sargentelli foi apresentador de TV, empresário da noite e também radialista e locutor nos anos de 1940. Na saudosa TV Tupi, Sargentelli comandou programas como “Advogado do Diabo” no qual fazia perguntas polêmicas aos convidados. Acontece que, em 1964, no início do regime militar, Sargentelli foi proibido de exibir o programa. Com isso, ele abriu uma casa noturna chamada Sambão, que ficava localizada em Copacabana, e mais duas casas noturnas, a Sucata e a Oba-Oba.

Pois bem…

Certo dia, Sargatelli liga para o cearense Evaldo Gouveia e diz que está com um menino, na Rádio Guanabara, e que precisa falar urgente com ele, mas não poderia ser por telefone, tinha que ser pessoalmente. Quando Evaldo chega na Rádio, Sargentelli diz “Evaldo, esse menino é muito talentoso, veio lá do Espírito Santo e precisa muito da sua ajuda”. Evaldo então pediu ao menino para cantar algo e ele, então, cantou “Tudo de Mim”, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim. Quando o menino terminou de cantar, Evaldo, emocionado, perguntou qual era o seu nome e ele então respondeu Altemar Dutra de Oliveira.

Evaldo Gouveia gozava de muito prestígio no meio musical e prometeu levar Altemar Dutra numa gravadora, mas antes o convidou para ir em sua casa. Almoçaram, beberam alguma coisa e conversaram bastante. Evaldo, ali, ficou sabendo da situação difícil pela qual passava aquele garoto que acabara de chegar no Rio de Janeiro para tentar a vida como cantor e decidiu ajuda-lo: “hoje você dorme aqui e vou te apresentar a algumas pessoas”.

Evaldo, então, leva, naquela mesma noite, seu hóspede à Boate Cangaceiro, onde se apresentava todas as noites a cantora carioca Helena Lima, que fazia muito sucesso àquela época. Antes de falar com o dono da boate, Evaldo apresenta Altemar Dutra aos artistas que ali estavam, sempre dizendo que aquele rapaz tinha uma das maiores vozes do Brasil. No entanto, ele não convenceu o dono da boate que foi irredutível e não aceitou que o novato se apresentasse. Mas Evaldo não desistiu e foi no camarim de Helena e pediu para que ela abrisse um espaço em sua apresentação para que Altemar Dutra se apresentasse. Como eles eram muito amigos, ela concordou de pronto.

Helena subiu no palco, foi ovacionada, cantou duas músicas e chamou Evaldo Gouveia, que estava com 12 músicas entre as mais tocadas do Brasil (lógico que o público foi ao delírio), mas, dessa vez ele não cantou. “Eu tô trazendo um rapaz aqui que tem uma voz tão bela como a da minha irmã Helena Lima. Recebam com aplausos Altemar Dutra”.

Entra no palco aquele pequeno homem, grande cantor, ajeita o violão na perna e canta “Tudo de Mim”. Quando ele termina, o público o aplaude de pé. Evaldo chora de emoção e Altemar Dutra emenda com “Brigas”. O público delira, grita e pede mais. No entanto, Evaldo Gouveia não deixa mais Altemar Dutra cantar. Quando descem do palco o dono da boate chama o Evaldo e diz “Elvaldo, eu quero contratar esse rapaz”. O Evaldo, só de sacanagem, então responde “sinto muito, meu amigo, mas a boate da frente, a Boate Michel, acabou de contratar o Altemar”. O dono da Cangaceiro retruca “não! Eu dobro o negócio”. O Evaldo, quase rindo, diz “agora eu tenho que conversar com o homem”.

Quer saber como essa história termina? Acompanhe a nossa próxima coluna que eu te conto.

Por hoje ficamos por aqui!

Bom final de semana!

MAIS Notícias

Maria Isabelle Marcelino Matias*   A minissérie “Emergência Radioativa”, produzida por Gustavo Lipsztein e dirigida por Fernando Coimbra, está disponível na plataforma de streaming Netflix. A produção dramatiza o acidente com césio-137 em Goiânia (1987), com foco...

Lira dos 20 Anos e a Filosofia Socrática
Lira dos 20 Anos e a Filosofia Socrática

    “Meu pai não aprova o que eu faço, tampouco eu aprovo o filho que ele fez.”   Há frases que parecem nascer de uma conversa íntima, talvez de uma mesa de jantar, de uma adolescência inquieta ou de uma casa onde duas gerações se olham sem conseguir...

Competências socioemocionais: a base para aprender  Precisamos parar e refletir sobre uma questão fundamental da educação: não existe aprendizagem significativa sem equilíbrio entre competências cognitivas e socioemocionais. As competências cognitivas permitem acessar, compreender e reproduzir conhecimentos. Mas são as competências socioemocionais que ajudam o indivíduo a acessar, manusear e utilizar aquilo que aprende. O pesquisador Antonio Damásio demonstra, em seus estudos, que não podemos compreender o cérebro separado do corpo. Aprendemos aquilo que, de alguma maneira, faz sentido para nós. A emoção participa desse processo porque nosso organismo precisa reconhecer determinada informação como importante para direcionar atenção e recursos neurais a ela. Durante muito tempo, os papéis estavam mais definidos. A escola concentrava-se na formação cognitiva, enquanto a família oferecia uma base cotidiana de formação: tarefas domésticas, respeito aos mais velhos, cumprimento de horários, responsabilidades, limites e convivência. Hoje, essa divisão tornou-se mais complexa. Em muitas famílias, faltam papéis claros, regras consistentes, responsabilidades, rotina e convivência. E, quando essa base não existe, a escola acaba recebendo uma criança que precisa aprender conteúdos, mas que ainda não desenvolveu suficientemente as condições emocionais para aprender. O resultado aparece na dificuldade de esperar, ouvir, focar, negociar, lidar com o “não”, aceitar frustrações e persistir diante das dificuldades. Precisamos, portanto, tomar cuidado com uma educação baseada no excesso de proteção, mimos, facilidades e status. Quando os pais fazem tudo pelos filhos, evitam qualquer frustração e elogiam excessivamente beleza, inteligência, notas ou conquistas, podem, sem perceber, formar crianças mais dependentes da aprovação e menos dispostas a enfrentar desafios. O que devemos elogiar? O processo. Elogie o esforço, a dedicação, a disciplina, a determinação e a capacidade de tentar novamente. É aqui que encontramos a contribuição de Carol Dweck com a ideia do “ainda”: “Você ainda não conseguiu”; “Ainda não deu certo”; “Ainda não foi dessa vez”. Isso muda a relação da criança com o erro. O fracasso deixa de ser uma sentença e passa a ser parte do processo de aprendizagem. Precisamos também ensinar a criança a esperar, ceder, negociar, compartilhar, respeitar regras e lidar com a frustração. Essas experiências são treinamentos fundamentais de autorregulação emocional. Por isso, algumas frases precisam deixar de comandar nossas decisões: “Não quero que meu filho fique irritado comigo”; “Não quero que meu filho deixe de ser meu amigo”; “Não quero contrariá-lo”. O papel dos pais não é evitar todo desconforto. É oferecer pertencimento, segurança, clareza e direção. Se queremos crianças emocionalmente fortes e felizes, precisamos parar de educá-las para nunca sofrer e começar a educá-las para persistir, esperar, respeitar, negociar, assumir responsabilidades e continuar tentando. Afinal, o sucesso não é determinado apenas pela capacidade de acertar. Muitas vezes, ele é determinado pela capacidade de persistir quando ainda não deu certo.
Competências socioemocionais: a base para aprender Precisamos parar e refletir sobre uma questão fundamental da educação: não existe aprendizagem significativa sem equilíbrio entre competências cognitivas e socioemocionais. As competências cognitivas permitem acessar, compreender e reproduzir conhecimentos. Mas são as competências socioemocionais que ajudam o indivíduo a acessar, manusear e utilizar aquilo que aprende. O pesquisador Antonio Damásio demonstra, em seus estudos, que não podemos compreender o cérebro separado do corpo. Aprendemos aquilo que, de alguma maneira, faz sentido para nós. A emoção participa desse processo porque nosso organismo precisa reconhecer determinada informação como importante para direcionar atenção e recursos neurais a ela. Durante muito tempo, os papéis estavam mais definidos. A escola concentrava-se na formação cognitiva, enquanto a família oferecia uma base cotidiana de formação: tarefas domésticas, respeito aos mais velhos, cumprimento de horários, responsabilidades, limites e convivência. Hoje, essa divisão tornou-se mais complexa. Em muitas famílias, faltam papéis claros, regras consistentes, responsabilidades, rotina e convivência. E, quando essa base não existe, a escola acaba recebendo uma criança que precisa aprender conteúdos, mas que ainda não desenvolveu suficientemente as condições emocionais para aprender. O resultado aparece na dificuldade de esperar, ouvir, focar, negociar, lidar com o “não”, aceitar frustrações e persistir diante das dificuldades. Precisamos, portanto, tomar cuidado com uma educação baseada no excesso de proteção, mimos, facilidades e status. Quando os pais fazem tudo pelos filhos, evitam qualquer frustração e elogiam excessivamente beleza, inteligência, notas ou conquistas, podem, sem perceber, formar crianças mais dependentes da aprovação e menos dispostas a enfrentar desafios. O que devemos elogiar? O processo. Elogie o esforço, a dedicação, a disciplina, a determinação e a capacidade de tentar novamente. É aqui que encontramos a contribuição de Carol Dweck com a ideia do “ainda”: “Você ainda não conseguiu”; “Ainda não deu certo”; “Ainda não foi dessa vez”. Isso muda a relação da criança com o erro. O fracasso deixa de ser uma sentença e passa a ser parte do processo de aprendizagem. Precisamos também ensinar a criança a esperar, ceder, negociar, compartilhar, respeitar regras e lidar com a frustração. Essas experiências são treinamentos fundamentais de autorregulação emocional. Por isso, algumas frases precisam deixar de comandar nossas decisões: “Não quero que meu filho fique irritado comigo”; “Não quero que meu filho deixe de ser meu amigo”; “Não quero contrariá-lo”. O papel dos pais não é evitar todo desconforto. É oferecer pertencimento, segurança, clareza e direção. Se queremos crianças emocionalmente fortes e felizes, precisamos parar de educá-las para nunca sofrer e começar a educá-las para persistir, esperar, respeitar, negociar, assumir responsabilidades e continuar tentando. Afinal, o sucesso não é determinado apenas pela capacidade de acertar. Muitas vezes, ele é determinado pela capacidade de persistir quando ainda não deu certo.

Competências socioemocionais: a base para aprender   Precisamos parar e refletir sobre uma questão fundamental da educação: não existe aprendizagem significativa sem equilíbrio entre competências cognitivas e socioemocionais. As competências cognitivas permitem...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *