Como um lagarto peçonhento

04/04/2026

 

Incrível como a grande imprensa brasileira (Globo, Folha e Estadão à frente) tem pautado sua agenda pelo que existe de mais abominável em termos jornalísticos. Num misto de cabotinismo e desfaçatez que beira o inimaginável, esses órgãos saíram do armário para vestir a camisa da extrema direita, e o fizeram sem medir meios e artifícios, bem na linha do que se pôde ver no caso despudorado do powerpoint da Globo News há uns poucos dias.

Não bastasse o que se configurou como um crime contra a correção jornalística e o respeito à veracidade dos fatos, num exemplo clássico da emenda sair pior que o soneto, a Globo News confiou à jornalista Andréia Sadi o pedido de desculpas mais vexaminoso de que se tem notícia nos últimos anos. Sadi, em cujo horário lançou-se mão do recurso a um só tempo leviano e criminoso, mal vestindo o papel de porta-voz da emissora, tremia lábios e embargava a voz, sabe-se lá se por nervosismo ou medo antecipado do que lhe poderá ocorrer do ponto de vista legal. No mínimo, por certo, sua imagem não apareceu bem na fotografia.

O que se viu foi um triste e despudorado espetáculo, desses de dar pena. Se se tratava de um erro técnico (argumento desprovido de qualquer senso de responsabilidade), por que a Globo News não publicou o tal powerpoint com as devidas correções, mostrando os reais envolvidos no caso Master, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o ex-presidente Bolsonaro e sua quadrilha à frente, até agora não foi explicado – e não será.

A Globo sendo a Globo, isto é, arregaçando as mangas e indo à luta contra a democracia, a exemplo do que fez (pediria desculpas algum tempo depois) quando do golpe de 1964.

Situação semelhante, lembremos, viveram os jornais citados acima. Oportuno lembrar que A Folha, por exemplo, fez o mesmo que a Globo: apoiou desavergonhadamente a ditadura, a cujo fato veio se referir com enfático pedido de desculpas que constou com destaque da programação do seu centenário, recentemente festejado.

Com o Estadão, também, ocorreria o mesmo. E é de causar asco o que vem fazendo em termos de cobertura e análise da conjuntura política e do processo sucessório de 2026.

Vira e mexe, sabe-se, essa imprensa veste a carapuça, assume aberta ou subliminarmente candidaturas de direita ou extrema direita, golpeia de morte a ética jornalística e fomenta o golpismo para depois vir a público com revelações e pedidos de desculpa que mais dão a medida de sua cretinice que reparam os graves erros cometidos. Quer vender a imagem da correção jornalística e escorrega feio na gosma do seu próprio vômito, assim como um lagarto peçonhento que cospe para um lado e outro à procura da vereda a seguir. Vergonha.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Os Sonhadores*
Os Sonhadores*

    “Vem, vamos embora/Que esperar não é saber/Quem sabe faz a hora/Não espera acontecer”. Os versos, extraídos da letra da canção ‘Pra não dizer que não falei de flores’, composta por Geraldo Vandré, em 1968, constituem o estribilho que chamou à luta os...

O vinho, o voto e a verdade
O vinho, o voto e a verdade

    “Poetas, seresteiros, namorados, correi!/ É chegada a hora de escrever e cantar,/ talvez as derradeiras noites de luar”!   Os versos acima são de Gilberto Gil, e foram extraídos da letra de Lunik 69, que faz referência à ambição do homem norte-americano...

Tristes Partidas
Tristes Partidas

    Num momento tão delicado da vida nacional, estando o país sob ameaças concretas de trágico retrocesso político e desconstrução do Estado Democrático de Direito, é lamentável que dois grandes nomes da cultura brasileira tenham nos deixado: Aracy do Amaral...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *