Duas palavras sobre Affonso Romano de Sant’Anna (1937-2025)

25/04/2026

Estudante de Letras, pelos idos de 80, acomodo-me a uma poltrona da primeira fila do auditório Castelo Branco, na reitoria da UFC. Bem à minha frente, compondo a mesa de conferência, está Affonso Romano de Sant’Anna, poeta, ensaísta, cronista, crítico de arte, que profere palestra sobre literatura luso-brasileira com o tino e a densidade acadêmica que marcam sua trajetória intelectual e artística de altíssimo nível.

Ao final, depois de responder a mil perguntas que lhe são dirigidas sobretudo por alunos da universidade, vestindo um blazer marrom sobre uma camisa escura de gola rolê de gosto duvidoso (o que lhe acentua a palidez da pele), Romano desce do palco e, bastante assediado, a custo tenta ser receptivo com todos.

Vendo-me a pouca distância, aguardando com educação a oportunidade de me dirigir a ele, o escritor faz um sinal com a cabeça, como a dizer que o acompanhasse até a área externa do auditório.

Caminhando pelo jardim até a sombra acolhedora de uma mangueira frondosa, posso finalmente abordá-lo amiúde. Amante da obra de Carlos Drummond de Andrade, da qual Affonso Romano de Sant’Anna era reconhecidamente o maior especialista, encareço dele apontar uma perspectiva de exame que possa acrescentar à fortuna crítica do nosso maior poeta. Embora gentil, em que pese a postura ligeiramente arrogante, que soube depois tratar-se de uma de suas marcas pessoais, Romano observa ser desaconselhável indicar caminhos em trabalhos do gênero, e conclui, evasivo, antes de retirar-se: “Explorar o filão memorialístico, quem sabe…”. É como desfecha nossa conversa, ainda escrevendo uma dedicatória do seu “O enigma vazio”, livro que tantas vezes, como professor, viria ter eu nas mãos durante aulas sobre arte conceitual e outras expressões estéticas ditas pós-modernas.

Ao lado de tantos outros intelectuais (Robert Hughes, Tom Wolfe, George Steiner, Ferreira Gullar etc.) a quem a irreverência, chacotas e expedientes estéticos de qualidade duvidosa da arte “contemporânea” causavam imenso desconforto, na linha do urinol de Duchamp e das latinhas de Piero Manzoni, contendo “merda d’artista” (conforme intitulou sua obra de 1968), Affonso Romano de Sant’Anna produziu um livro fundamental para o debate no Brasil acerca da validade de tais experiências estéticas. Mas o faz tomando por base textos de gente grande, verdadeiros ícones da crítica de arte que se dedicaram a defender esses artistas transgressores em verdadeiros exercícios de subjetivação, “delírios interpretativos” e abusos lógicos.

Anos depois, através de um amigo de Belo Horizonte, consigo o que parecia improvável: o contato de Affonso Romano de Sant’Anna, morando no Rio, à época. Agora pesquisava eu a poesia de Drummond em outra dimensão, no que viria a ser a minha dissertação de mestrado sobre “componentes dramáticos” da poética do itabirano. Trata-me com delicadeza, sem a empáfia de antes, mas é taxativo, equilibrando-se entre a indiferença e a fria generosidade: “O que tinha a dizer sobre Drummond está no meu livro”, referindo-se ao clássico “O gauche no tempo”.

Sabendo que homem e artista não são exatamente a mesma coisa, continuaria eu a ser um leitor compulsivo de sua obra monumental – do ensaísta profundo, do cronista inconfundível, do crítico de arte notável, mas, sobretudo, do poeta extraordinário, cuja visada política exercera sobre mim e os de minha geração tanta influência, desde que a leitura de “Que país é este?”*, em plena ditadura, despertara em nós o sentimento de revolta contra aquele estado de coisas, sem que, no entanto, jamais perdêssemos a confiança no futuro ao encontro do qual caminhávamos, muito embora atônitos.

Quando em abril de 1981, em evento dedicado à festa do Dia do Trabalho, um capitão e um sargento armavam uma bomba no Riocentro, e o artefato explodiu dentro do carro em que estavam, no cumprimento de um expediente sórdido arquitetado pelo Exército, o governo golpista tenta livrar-se da responsabilidade montando uma farsa ridícula. Affonso Romano de Sant’Anna veio a público com “A implosão da mentira”, um poema desconcertante: “Mentiram-me. Mentiram-me ontem/e hoje mentem novamente. / Mentem / de corpo e alma, completamente. / E mentem de maneira tão pungente / que acho que mentem sinceramente. […] E de tanto mentir tão brava / mente / constroem um país de mentira / diária / mente”.

Pouco antes de sentar-me diante do computador para escrever esta coluna, virei a última página de “Quase diário”, um dos últimos livros de Affonso Romano de Sant’Anna. Leitura absolutamente prazerosa, dessas em que as funções cognitiva e lúdica do texto se nivelam, numa experiência horaciana que ao mesmo tempo ensina e diverte, revelando o homem comum com suas contradições, sua vaidade, suas atitudes talvez questionáveis, mas, acima de tudo, o tamanho imenso de sua presença na vida intelectual e artística do país nos 40 últimos anos.

 

*”Uma coisa é um país,/outra um ajuntamento.//Uma coisa é um país,/outra um regimento.//Uma coisa é um país,/outra o confinamento.//Mas já soube datas, guerras, estátuas,/usei caderno “Avante”/— e desfilei de tênis/para o ditador.//Vinha de um “berço esplêndido”/para um “futuro radioso”/e éramos maiores em tudo/— discursando rios e pretensão.//Uma coisa é um país,/outra um fingimento.//Uma coisa é um país,/outra um monumento.//Uma coisa é país,/outra o aviltamento.” (fragmento).

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Exaltemos Jorge Amado
Exaltemos Jorge Amado

  Com Paulo Elpídio, em conversa rápida por telefone, sou assertivo: "A crítica literária brasileira, com a exceção de Antonio Candido e uns poucos, de tão obtusa, jamais deu a Jorge Amado o valor que fez por merecer como ficcionista. Paulo Elpídio acabara de me...

Noite alta em Florença
Noite alta em Florença

    Para Carolina, minha filha linda, que, estando em Fortaleza, "estava" comigo em Florença.   Estávamos, minha mulher, meu filho e minha nora num restaurante, em Florença, comemorando os meus 70 anos. Entre uma taça de vinho e outra, tomados de poesia...

Como um lagarto peçonhento
Como um lagarto peçonhento

  Incrível como a grande imprensa brasileira (Globo, Folha e Estadão à frente) tem pautado sua agenda pelo que existe de mais abominável em termos jornalísticos. Num misto de cabotinismo e desfaçatez que beira o inimaginável, esses órgãos saíram do armário para...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *