
*Elion Silva é Doutor em Ensino de Matemática, Pós-graduado em Teologia, Professor do IFCE.
Por Elion Silva*
Por mais incabível que a pergunta do título possa parecer, afinal vivemos numa democracia e cada cidadão tem o direito de votar em quem desejar, tenho me deparado cada vez mais com afirmações do tipo: “ou você é cristão ou vota na esquerda”. A frase é curta, mas carrega uma pretensão enorme: a de estabelecer uma fronteira espiritual a partir de uma escolha eleitoral, como se determinado voto aproximasse alguém de Deus e outro o afastasse. Isso seria apenas ridículo se não fosse perigoso. Uma coisa é um pastor possuir convicções políticas; outra, muito diferente, é subir ao púlpito e sugerir: “Deus está deste lado, e quem votar do outro está contra Ele”. Nesse instante, a fé vira instrumento de coerção, o púlpito vira palanque e o fiel deixa de ser tratado como discípulo para ser tratado como eleitor.
Não escrevo para dizer em quem um cristão deve votar. Seria trocar uma manipulação por outra. Escrevo justamente para defender sua liberdade de consciência. É nesse contexto que precisamos falar da chamada Teologia do Domínio, corrente que ganhou força especialmente no evangelicalismo político norte-americano e encontrou ressonância também no Brasil. Uma de suas expressões mais conhecidas é o chamado “Mandato dos Sete Montes”, segundo o qual cristãos deveriam conquistar influência decisiva sobre família, religião, educação, mídia, artes, economia e governo. Perceba a mudança de linguagem: não apenas servir, testemunhar ou dialogar, mas conquistar, ocupar e dominar. E talvez seja aí que devamos desconfiar. Quando o Evangelho começa a falar demais a linguagem do poder, convém perguntar se ainda estamos diante do carpinteiro da Galileia ou de um projeto político vestido de Bíblia.
Isso não significa que todo evangélico conservador seja dominionista, nem que cristãos devam abandonar a política. Pelo contrário. Cristãos são cidadãos e têm todo direito de participar dela. O problema começa quando uma preferência política deixa de ser uma escolha e passa a ser apresentada como mandamento divino. A própria história recente mostra o quanto essas alianças são circunstanciais. Silas Malafaia, hoje identificado com o conservadorismo político, apoiou Lula em 2002 e chegou a afirmar que, quando uma igreja faz institucionalmente opção por um candidato, “ela deixa de ser igreja”. Mudar de opinião é legítimo; o que não é legítimo é transformar preferências políticas recentes em doutrinas que parecem ter descido do Sinai.
É justamente por isso que digo, sem qualquer constrangimento: graças a Deus o Brasil é um Estado laico. A laicidade não expulsa Deus da sociedade; ela impede que alguém se autoproclame representante oficial de Deus dentro do Estado. Imagine um Brasil oficialmente “terrivelmente evangélico”. Qual evangelicalismo governaria? Batista, assembleiano, presbiteriano, neopentecostal? E o que aconteceria com católicos, espíritas, judeus ou religiões de matriz africana? Agora inverta o cenário: imagine outra religião tornando-se majoritária amanhã e impondo seus valores aos cristãos. Talvez então compreendêssemos por que a liberdade religiosa do outro é também a garantia da nossa própria liberdade. O direito que negamos hoje pode ser justamente aquele de que precisaremos amanhã.
Jesus parece ter compreendido muito bem o perigo dessa fusão entre religião e poder: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. César não é Deus. E Deus não precisa se transformar em César. O Brasil não é o antigo Israel, Brasília não é Jerusalém, o presidente não é rei davídico e a Praça dos Três Poderes não é o Monte Sião. Qualquer sonho de teocracia veterotestamentária aplicado a uma democracia plural do século XXI deveria provocar, no mínimo, uma pergunta: onde entra Jesus nisso?
E Jesus incomoda todos os nossos palanques. Ele fala de pobres, famintos, estrangeiros, doentes, presos e marginalizados. Em Mateus 25 identifica-se com eles; em Lucas 10 faz de um estrangeiro desprezado o herói da história; em Lucas 4 anuncia boas-novas aos pobres e liberdade aos oprimidos. Isso não faz de Jesus um homem “de esquerda”. Tampouco faz dele um homem “de direita”. Faz dele alguém grande demais para caber em nossas caixas ideológicas. Se quisermos utilizar Jesus como referência eleitoral, talvez seja melhor perguntar menos qual candidato segura uma Bíblia e mais como ele trata pobres, adversários, minorias, estrangeiros, vulneráveis e aqueles que não pertencem ao seu grupo. Segurar uma Bíblia não transforma ninguém em discípulo de Jesus. Até o Diabo cita Escritura nos Evangelhos. Jesus mandou olhar os frutos.
Portanto, sim: cristão pode votar em candidato de esquerda. Pode votar à direita, ao centro, anular, mudar de opinião e discordar de seu próprio pastor. O Novo Testamento não contém uma tabela partidária. E nenhum líder religioso possui autoridade para transformar sua preferência eleitoral em critério de fidelidade a Cristo. Se seu pastor apresenta argumentos políticos, escute-o; se tenta controlar seu voto pelo medo, pela culpa ou pela ameaça espiritual, rejeite essa manipulação. Se transforma adversários em demônios e eleição em batalha espiritual, algo profundamente perigoso aconteceu. Pastor não é dono de consciência. Partido algum possui monopólio sobre Deus. E candidato algum é messias.
Governos passam. Presidentes passam. Partidos passam. Ideologias passam. Pastores passam. Roma passou. Cristo permanece. Por isso, quando alguém tentar transformar Jesus em cabo eleitoral, desconfie. Quando disserem que Deus precisa vencer uma eleição, lembre-se: o Reino de Deus nunca dependeu do resultado de uma urna.
Uma coisa é o voto dos evangélicos.
Outra, infinitamente maior, é o Evangelho.
*Elion Silva é Doutor em Ensino de Matemática, Pós-graduado em Teologia e Professor do IFCE

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