Que país é esse?

12/09/2026

 

Kleyton Bandeira Cantor, compositor e pesquisador cultural

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural

Gente, fala sério! Há músicas que parecem esperar pelo futuro para revelar toda a sua força. “Que País É Esse” é uma delas. Escrita, por Renato Russo, ainda no período da ditadura e eternizada pelo Legião Urbana, a canção continua funcionando como uma espécie de espelho incômodo do Brasil: um país de contradições, de instituições em permanente tensão, de riquezas imensas e desigualdades persistentes.

Hoje, basta olharmos para Brasília.

Na primeira estrofe, a pergunta parece encontrar abrigo na própria Justiça. O Supremo Tribunal Federal atravessa uma das crises institucionais mais delicadas de sua história recente. Nos últimos dias, ministros protagonizaram decisões conflitantes envolvendo a Polícia Federal, houve disputa sobre competências e o presidente da Corte, Edson Fachin, precisou suspender decisões divergentes para preservar a ordem institucional e a segurança jurídica.

Não se trata de tomar partido por este ou aquele ministro. O problema é maior. Quando cidadãos, empresas e instituições começam a ter dificuldade para compreender qual decisão prevalecerá, a segurança jurídica deixa de ser uma abstração acadêmica e passa a ser um problema concreto da democracia. Uma Constituição não pode ser apenas respeitada quando convém aos que estão no poder. Tampouco pode ser interpretada como se fosse uma peça de barro moldável conforme a circunstância.

Na segunda estrofe, o olhar se desloca para a Amazônia. E aqui os números são eloquentes. Segundo o INPE, a taxa de desmatamento na Amazônia Legal passou de 7.536 km² em 2018 para 10.129 km² em 2019, primeiro ano do governo Jair Bolsonaro; chegou a 10.851 km² em 2020 e atingiu 13.038 km² em 2021. O Tribunal de Contas da União, ao avaliar as políticas de controle do desmatamento do governo Bolsonaro, apontou problemas na estrutura de governança das políticas públicas destinadas ao combate ao desmatamento ilegal.

Não é preciso transformar a floresta em bandeira partidária para reconhecer o problema. A Amazônia é patrimônio ambiental, econômico e estratégico do Brasil. Quando a fiscalização ambiental perde força, quando o desmatamento cresce e quando a preservação deixa de ser prioridade de Estado, o prejuízo não fica restrito à floresta. Afeta a biodiversidade, os povos tradicionais, o regime de chuvas, a agricultura e a própria imagem internacional do país.

E novamente a canção pergunta: que país é esse?

A terceira estrofe nos leva ao trabalhador.

A discussão sobre o fim da escala 6×1 chegou ao Senado por meio da PEC 221/2019. A proposta, aprovada pela Câmara em maio de 2026, prevê redução da jornada máxima para 40 horas semanais e dois dias de repouso remunerado, sem redução salarial.

O tema, entretanto, entrou no calendário político-eleitoral. O candidato à presidência da república e senador Flávio Bolsonaro e seus aliados pressionaram pelo adiamento da votação, enquanto o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, postergou a análise para depois das eleições.

Aqui é preciso fazer uma distinção: o Senado tem legitimidade para discutir, modificar ou rejeitar uma PEC. Isso faz parte do processo legislativo constitucional. O problema é outro: quando uma matéria que diz respeito diretamente à vida cotidiana de milhões de trabalhadores passa a ser submetida ao cálculo eleitoral, o cidadão pode legitimamente perguntar se seus interesses estão sendo colocados à frente das conveniências políticas.

Seis dias de trabalho para um dia de descanso não é apenas uma fórmula jurídica. É tempo de vida. É o domingo perdido. É o aniversário do filho que os pais não comemoram. É a mão que chega em casa quando os filhos já dormiram. É o pai que trabalha enquanto a família descansa. É o trabalhador que vende não apenas sua força de trabalho, mas parcelas preciosas de sua existência.

Por isso, quando uma pauta dessa dimensão fica presa às engrenagens da disputa política, a velha pergunta de Renato Russo volta a fazer sentido.

Que país é esse?

E então chegamos à última estrofe — talvez a mais inquietante de todas.

A música fala de um país que pode acabar vendendo suas próprias riquezas, sua própria alma, sua própria identidade.

Hoje, essa metáfora encontra um novo capítulo na relação entre o bolsonarismo e o governo Donald Trump. Flávio Bolsonaro, em março, durante evento nos Estados Unidos, chegou a pedir “pressão diplomática” sobre as instituições brasileiras. Recentemente ele afirmou que, caso logre êxito nas eleições presidenciais, colocaria o processo de transição política à disposição dos EUA.

Isso significa, sem sombra de dúvidas, que existe um acordo tácito de “entregar o Brasil aos Estados Unidos” caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente da república.

E é justamente aí que a metáfora da música se torna poderosa.

Uma coisa é construir relações diplomáticas, comerciais e estratégicas com os EUA. Outra, completamente diferente, é imaginar que conflitos internos brasileiros devam ser resolvidos pela pressão desse mesmo país. Somos uma nação soberana e isso nos garante que os problemas do Brasil sejam resolvidos pelos brasileiros. Nenhum presidente americano deve escolher nossos ministros. Nenhum governo estrangeiro deve determinar o funcionamento de nossas instituições. Nenhuma potência deve ser convocada para arbitrar nossas eleições. Porque uma democracia que terceiriza sua soberania começa, pouco a pouco, a vender aquilo que a canção chamou de “alma”.

“Que País É Esse?”

A pergunta não é apenas sobre Brasília ou sobre o STF. Não é apenas sobre Bolsonaro, Lula, Flávio, Congresso ou eleições. É sobre nós.

Que país queremos ser?

Um país em que a Constituição seja respeitada mesmo quando contraria nossos interesses? Um país capaz de proteger sua floresta sem transformar o meio ambiente em guerra ideológica? Um país que consiga discutir produtividade sem esquecer que trabalhador também tem direito ao descanso, à família e à vida? Um país que mantenha relações internacionais fortes sem abrir mão de sua soberania?

Ao que parece, estranhamente, ainda há muitas dúvidas para essas perguntas. Mas para aqueles que dormem, ainda há tempo para acordar.

O Brasil é esse país — contraditório, imperfeito, apaixonante e cheio de problemas — mas é o nosso país. E justamente por isso vale muito a pena lutar por ele. Lutar para que a Constituição seja mais que um pedaço de papel; para que a Amazônia continue sendo o pulmão do planeta Terra; para que o trabalho não devore a vida de ninguém; para que nenhuma potência estrangeira dite nosso destino; e para que a democracia consiga, definitivamente, transformar esperança em realidade.

No fim, talvez a pergunta de Renato Russo não seja apenas uma acusação, mas sim um convite à responsabilidade.

E aí, que país é esse?

É o país que nós decidirmos construir.

Bom fim de semana e até a próxima!

MAIS Notícias
Crise no comércio: mitos ou verdades
Crise no comércio: mitos ou verdades

    Nos tempos vividos atualmente tem sido comum ouvir reclamações de empresários, sobre a crise existencial no comércio das cidades em especial no ramo varejista. Em meio as afirmações de alguns comerciantes e por outro lado a expansão de alguns, o grande...

Maria Isabelle Marcelino Matias*   A minissérie “Emergência Radioativa”, produzida por Gustavo Lipsztein e dirigida por Fernando Coimbra, está disponível na plataforma de streaming Netflix. A produção dramatiza o acidente com césio-137 em Goiânia (1987), com foco...

Lira dos 20 Anos e a Filosofia Socrática
Lira dos 20 Anos e a Filosofia Socrática

    “Meu pai não aprova o que eu faço, tampouco eu aprovo o filho que ele fez.”   Há frases que parecem nascer de uma conversa íntima, talvez de uma mesa de jantar, de uma adolescência inquieta ou de uma casa onde duas gerações se olham sem conseguir...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *