De glórias e soluços

26/09/2025

É vasta a produção de obras literárias que tratam da fugacidade das coisas. De Platão a Foucault, de Jorge Luis Borges a José Saramago, de Vieira a Drummond, passando por autores os mais diversos, a exemplo de Gregório de Matos e Manuel Bandeira a Mário Quintana; de Machado de Assis e Jean-Paul Sartre ou Simone de Beauvoir, escritos imorredouros constituíram para além de páginas de notável beleza e reconhecida profundidade.

Proporcionaram-nos (ou deveriam proporcionar), esses textos, através dos tempos, reflexões que poderiam nos ter tornado seres melhores, menos curvados à fogueira das vaidades tolas e dos sentimentos condenáveis.

Ocorrem-me, enquanto escrevo as primeiras linhas da coluna de hoje, guardados de cor, porque eivados de beleza formal e força conteudística raras, os versos antológicos de Luís Vaz de Camões: “Mudam-se os tempos. Mudam-se as vontades, /muda-se o ser, muda-se a confiança; /todo o mundo é composto de mudanças, /tomando sempre novas qualidades”.

O autor, como sabemos, sofreu significativas influências de Petrarca, vate italiano, cuja obra ecoa Platão, que, por sua vez, em essência, e como poucos, racionalizou a transitoriedade da realidade humana.

De Cecília, ao sabor de certeiras lembranças, chegam-me os versos do poema Retrato: “Eu não tinha este rosto de hoje/assim calmo, assim triste, assim magro/nem estes olhos tão vazios/nem o lábio amargo”.

A vida, com a rapidez de um sopro, põe por terra grandes palácios, torna feio o que foi beldade, sujo e podre, o que teve brilho e perfume; frágeis e irreconhecíveis, as mãos que torturaram, e asquerosos os dedos com que se apontaram supostos pecadores, eles mesmos conspurcados pela motivação da injúria e da difamação perversa.

Redonda, e girando pelo sem-fim dos dias e das noites, a terra vai compondo seus mistérios, reescrevendo a História, dando voz aos que silenciaram, tolhidos pelo poder da acusação leviana de Moros (Sérgio), Deltans (Dallagnol) e Gabrielas (Hardt), em tenebrosas práticas de lawfare, desavergonhadamente usado como instrumento jurídico de perseguição da mais legítima liderança popular brasileira.

Mas tudo muda, tudo se transforma, cedo ou tarde, a verdade se revela, e, como que por milagre, renascem das cinzas os que pareciam mortos, os humilhados e ofendidos, para galgar as mais merecidas e definitivas glórias.

Semana que vem, o falso herói de Curitiba será julgado pela primeira turma do STF, dentre cuja composição, altivo e tecnicamente infalível, desponta um tal Cristiano Zanin, tantas vezes cerceado, ameaçado pela prepotência de um juiz injusto e movido a ódio, os olhos voltados para o Supremo a que nunca chegará por razão de sua desabrida ganância e indisfarçável desfaçatez.

E o tal Deltan, ex-deputado cassado pela prática de crimes e malfeitos, debaixo de que escuridão tece seus planos diabólicos? Para que público apresenta hoje seus softwares, seus slides ardilosamente desenhados, seus gráficos, seus áudios e vídeos montados para fins espúrios e interesses inconfessáveis?

Quem descobrirá onde se esconde, anônima e desmoralizada, a tal juíza, plagiadora de pareceres, laudos, sentenças?

As tais mudanças de que nos falou Camões.

O ex-presidiário é hoje presidente, aclamado aos quatro cantos do mundo. O ex-presidente é hoje presidiário, afogado em lama, falcatruas e tramoias (abraçado ao desespero), a quem, vez e outra, segundo o filho 2, em entrevista recente, falta ar nos pulmões “por mais de dez segundos”, como a imitar, entre soluços, bem na linha do que fez, a asfixia daqueles que agonizavam – dramaticamente! -, por falta da vacina que se recusou comprar.

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Encontro de velhos amigos
Encontro de velhos amigos

      Dia desses, entre surpreso e indignado, precisei dos trabalhos de uma advogada, que nem sempre saem ao gosto do leitor as coisas que escrevo aqui. É que homens públicos, afeitos às conveniências e aos elogios fáceis, o mais das vezes insinceros e...

As Boas Mulheres da China
As Boas Mulheres da China

    Vejo no jornal estatística atualizada da violência contra a mulher no Brasil. São números assustadores. Há coisa de uns muitos anos, uma amiga de Piracicaba recomendou que eu lesse “As Boas Mulheres da China”, da jornalista Xinran. Passado tanto tempo,...

Adeus a Cely
Adeus a Cely

“… a saudade dói como um barco/que aos poucos descreve um arco/e evita atracar no cais” (Chico Buarque) A última vez que nos vimos, faz algum tempo, foi num encontro casual, ela chegando e eu saindo de um shopping da cidade. Me falou sobre o que faria ali: “Vim à...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *