Devaneios de um ébrio

18/05/2024

‘‘O álcool tira as ilusões.

Depois de alguns golos de conhaque

já não penso em ti.’’

– Marguerite Yourcenar

Devaneio I

‘‘Meu coração é um balde despejado’’, frase contida no impecável poema ‘‘Tabacaria’’, do Álvaro de Campos (heterônimo utilizado por Fernando Pessoa). Já um amigo meu, culto, fino escritor, diz algo como: ‘‘O coração de um homem é como o convés de um navio: está cheio de marcas, furos, avarias de toda sorte, causadas pelo tempo.’’

Já eu, fico com as duas proposições. No final, querem transmitir a mesma essência dolorosa do dissabor da desilusão, da derrocada, da senda findada. Foi bem assim que começamos um caloroso colóquio envolto em copos cheios, fumaça de cigarro e, de quando em quando, pilhérias ardilosas. É assim que homens esquecem, ainda que por um átimo, das suas dores internas.

Trancafiamos os espíritos que nos atormentam no soturno sótão. É a nossa espécie de bacia das almas. Mas, nesse caso, o perdão não dissipa as fantasmagóricas experiências, que insistem em permanecerem no recôndito do nosso ser… E assim vamos vivendo… ou melhor, existindo…

 

***

 

Devaneio I!

Nenhuma pessoa é, em si, verdadeiramente valorosa. Este tal valor lhe é aferido mediante expectativas contempladas por quem assim lhe atribuiu tal medida. Trata-se, tão somente, de um erro de conceituação, de projeção, de prefiguração – a ser posteriormente revelado pelo intermédio da decepção.

Assim, culpabiliza-se a outrem, não pelas características que são as suas, mas pelas que este indivíduo supunha conhecer no outro como reais. A via de terceiros perpassa o caráter analítico, de tal modo, que, confunde-se a associação de um ideário puramente ilusório a um fato absoluto.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

 

MAIS Notícias
O 1° turno: o Brasil virou à Direita
O 1° turno: o Brasil virou à Direita

Para começar, amigo leitor, intento não colocar dados e informações matemáticas em demasia; apenas o básico, para, assim, não tornar esta crônica enfadonha. Serei o mais direto e objetivo possível. Vamos lá! Primeiramente, preclaro leitor, ante o resultado desse...

O caso Lourival – final
O caso Lourival – final

  Foi então que ouvi um ruído vindo dos fundos do bar. Como passos. Lentos. Arrastados. Leonardo ficou pálido. — Não deveria ter vindo hoje. — Quem? Ele não respondeu. Os passos pararam. Durante alguns segundos, nada aconteceu. Então ouvimos três batidas na porta...

A urna, o amanhã e a escolha da Liberdade
A urna, o amanhã e a escolha da Liberdade

    Existe no caminhar em direção à seção eleitoral no domingo um silêncio peculiar. Não importa o barulho do trânsito ou a movimentação nas calçadas; quando chegamos à porta do colégio onde votamos, o país inteiro parece prender a respiração por um...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *