Diário de viagem

28/03/2026

Até chegar a Milão, fiz de trem uma bela viagem. No meu caso, a forma alongada do território italiano ajudou muito, embora, algumas vezes, tivesse eu de sair da linearidade do roteiro a fim de conhecer uma ou outra cidade mais interessante.

Parti de Berna, na Suíça, chegando, inicialmente, como disse acima, a Milão. Depois, Verona, Veneza, Bolonha, Gênova, Florença, San Remo e Pisa. Iria, ainda, na ordem das recordações deste instante, a Roma e Nápoles, sobre cujas cidades escreverei depois.

Como fosse inevitável ziguezaguear, ora à direita, ora à esquerda do mapa, percorri longos trechos do litoral entre o Tirreno (parte do Mar Mediterrâneo que se estende pela costa Oeste) e o Adriático, ao Norte da Itália, conhecendo, assim, cidades menos importantes, cujos nomes me fogem na distância desses muitos anos.

A Itália, todos sabem, é um país fantástico, de uma beleza natural estonteante, mas foram a riqueza de sua cultura e a prodigalidade de sua arte o que mais me encantou, desde que aqui estive pela primeira vez.

Chegando a Florença — muito jovem ainda, dava eu os primeiros passos no vastíssimo terreno da história da arte —, deparo com o Duomo, a impressionante obra de Brunelleschi. Uma sensação indescritível se apossou de mim ao primeiro olhar. Mas é a visita às igrejas e museus que me deixam definitivamente tragado pela beleza do estilo em que sobressaem, em equilíbrio de massas e medidas, os traços serenos da Renascença.

Artistas geniais, objeto de tantas aulas deste velho professor de Arte, como Michelângelo, Fra Angélico e Donatello, para não falar no inacreditável Leonardo Da Vinci, deixaram aqui um legado que em nenhum outro lugar pode-se ver em tamanha exuberância.

O mapa da cidade, lembrando a forma de um peixe, com um traçado profundamente irregular, embora dificulte um tanto o deslocamento entre um e outro ponto turístico, ocasiona a quem caminha por estas ruas uma sensação de profundo bem-estar, misto de sonho e realidade.

Síndrome de Stendhal*. A beleza extrema a desencadear sintomas físicos reais, palpitações, vertigens, delírios… Ou síndrome de Florença, apenas?

Paroxismos à parte, contemplo algumas das obras da mais elevada significação da arte ocidental. O Duomo de Santa Maria Del Fiore, já referido neste diário, com uma majestade que transita do gótico para o neogótico, suas capelas encantadoras, seu campanário de revestimento sedutor, com mármore toscano em diferentes cores.

Adiante, refeito do primeiro impacto, deparo com a beleza inigualável do “Juízo Final”, afresco de Giorgio Vasari, a quem devemos, entre tantas obras, o incontornável “Vidas”, biografia dos expoentes do Renascimento italiano.

Em seguida, pelos dias que me restam aqui, dou-me a uma sucessão de atrações, a exemplo da Galleria dell’Accademia, Pallazo Pitti, Palazzo Vecchio, Igreja de San Marco, Museu Bargello e, supostamente a mais antiga galeria de arte de que se tem notícia, a Galleria degli Uffizi, onde me encanta a “Vênus de Urbino” (1538), de Ticiano, e, mais tomado de enlevo, deparo com “O Nascimento de Vênus” (1485), de Botticelli.

Berço do Renascimento, Florença, assim, transpira arte e magia, sortilégios e fascínios.

Caminhar por suas ruas estreitas, remanescentes da Idade Média, como disse, é uma experiência indescritível, embora, vez e outra, o turista desatento corra o risco de ser atropelado pelas incontáveis motocicletas que circulam pela cidade, num viravoltear enlouquecido que contrasta com o ritmo doce e terno do lugar.

Mas não é só a arte da Renascença que excede, aqui, em sua presença pujante e sedutora. Ao lado de grandes nomes do Alto Renascimento, como os já citados Rafael, Da Vinci, Michelângelo, Botticelli, Ticiano, e tantos outros, na Galleria degli Uffizi, por exemplo, deparamos com obras de Caravaggio, Rubens, Rembrandt, entre muitos ícones do Barroco.

Amante das artes e das viagens, voltaria a Florença outras vezes, a exemplo do que faço nesse 29 de março, para festejar, grato a Deus e ao Destino, a chegada do meu heptagésimo aniversário.

Tudo envolve, alicia, deslumbra…

E tinha tanto mais por dizer, mas a mão já reclama, errática e trêmula, delicadamente domada pela emoção.

Oxalá ainda me sejam muitas as viagens — e, abençoados, os anos que virão.

*O escritor francês relatou essas reações ao visitar a Basílica de Santa Croce, em 1817.

P.S. O texto, como é comum no gênero, joga intencionalmente com tempos verbais, descumprindo orientações de gramática e estilo, num tipo de subjetivação que obedece mais às oscilações do sentimento que ao rigor da forma.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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