Francisco Jânio Alves, o garçom que conquistou o diploma de Engenharia Civil aos 40 anos

Após 14 anos longe das salas de aula, Francisco Jânio Alves superou rotina exaustiva de trabalho, impactos da pandemia, dificuldades financeiras e luto para realizar o sonho da graduação

27/06/2026

 

O caminho até o ensino superior raramente é uma linha reta. Para o garçom Francisco Jânio Alves, 40, foi uma verdadeira prova de resistência. Natural de Jucás, do sítio Carro Quebrado, Jânio acaba de atingir um marco que, anos atrás, parecia inalcançável: a conquista do diploma de nível superior em Engenharia Civil. A formatura aconteceu na noite desta quinta-feira, 25, pela Faculdade São Francisco do Ceará – FASC. Por trás do canudo, há uma história marcada por incentivo familiar, superação de perdas profundas e uma rotina incansável entre o trabalho e os livros.

A história de Jânio com a faculdade não começou por acaso. O grande motor inicial dessa jornada foi sua esposa Ana Cristina Matos de Moura. Sabendo do desejo do marido de aprender, Ana Cristina foi a principal incentivadora para que ele voltasse a estudar. “Os estudos foram sempre voltados a aprender, a crescer. Tive grandes dificuldades. No sítio era difícil. Quando comecei a estudar, a gente ia para Jucás, de caminhão, pau-de-arara. Mas também convivendo com a roça, meus pais tinham um gadozinho, eu tirava o leite e vinha deixar na Vila São Pedro”, relembra Jânio, os seus primeiros passos.

Ainda na juventude, fez curso de garçom, no distrito de São Pedro, logo depois conseguiu vaga no mercado de trabalho, só que em Iguatu. Por aqui, passou 13 anos na atividade, no antigo restaurante do Auto Posto Barreiras, com o fechamento do local, foi convidado para trabalhar no restaurante Vila da Telha, onde continua atualmente. Já são dez anos. “Reinaldo me deu oportunidade. Mas sempre tinha em mente estudar. Depois veio a família, filhos. O trabalho era mais do que prioridade. Fiz um curso antes, mas desisti. Fiz também de Bombeiro Civil. Depois apareceu essa oportunidade, sempre incentivado pela minha esposa Ana Cristina.”

O desafio inicial era o tempo e a autoconfiança. Francisco Jânio já estava há 14 anos sem frequentar uma sala de aula regular. Ele havia tentado caminhos anteriores, iniciando os cursos de Técnico em Segurança do Trabalho e de Bombeiro Civil, mas as circunstâncias da vida o impediram de concluí-los. Além disso, o medo de enfrentar disciplinas como Português e Redação pesava como um grande obstáculo pessoal.

Sonho de criança

No entanto, o cenário mudou em 2018. Com a abertura do curso de Engenharia Civil na Faculdade São Francisco do Ceará, ele decidiu arriscar. Prestou a prova, foi aprovado e deu início ao que seria a fase mais intensa de sua vida. “Comecei a estudar, passei e foi assim que começou minha carreira na faculdade. Eu gostava muito de Matemática, e a engenharia sempre me interessou. Desde criança queria ser engenheiro agrônomo, mas como era mais difícil aqui optei pela engenharia civil”, disse.

Os primeiros anos exigiram desdobramento físico e mental. Para dar conta das mensalidades e do sustento do lar, Francisco Jânio conciliava as aulas com o trabalho. A rotina não dava trégua: em muitos dias, o estudante saía direto dos blocos da faculdade para assumir o turno no trabalho, enfrentando o cansaço diário.

Abandono e recomeço

Quando o ritmo parecia estabilizado, o mundo parou devido à pandemia da Covid-19. As aulas presenciais foram substituídas pelo formato online. Para Jânio, a distância física do ambiente acadêmico prejudicou a absorção do aprendizado e minou sua motivação. Diante do isolamento e das dificuldades técnicas, ele tomou a dolorosa decisão de trancar a faculdade.

Como se o cenário global já não fosse difícil o suficiente, o período de afastamento trouxe o golpe mais duro de sua trajetória: a perda de seu pai. O luto e o desânimo paralisaram os planos acadêmicos por um longo período.

O ponto de virada aconteceu após um profundo processo de reflexão interna. Jânio percebeu que não poderia se acomodar com as circunstâncias atuais. O desejo de crescer profissionalmente, de buscar uma realidade melhor para sua família e, fundamentalmente, a necessidade de provar a si mesmo a sua capacidade o impulsionaram a reabrir a matrícula. “Estudar engenharia online foi difícil. Não existe. As dificuldades, tinha que tirar muitas vezes comigo mesmo, porque não tinha ali aquele contato presencial.”

O retorno, contudo, trouxe novos desafios. Passando a estudar no período da noite, a jornada tornou-se ainda mais exaustiva. Ser pai, arcar com as responsabilidades familiares, lidar com as barreiras financeiras e o tempo escasso com a esposa eram motivos diários que poderiam justificar uma desistência. “Todos esses obstáculos foram superados com dedicação, luta e perseverança. Aprendi que, quando colocamos um objetivo em nossa mente e persistimos, mesmo diante das dificuldades, somos capazes de alcançar. Reinaldo me apoiou muito, porque conseguia conciliar o trabalho com o curso. Apoio da família, do trabalho, força de vontade para conseguir algo na vida”, afirma o agora engenheiro.

Espiritualidade

Para Francisco Jânio, a sustentação em toda essa caminhada veio de sua espiritualidade. O profissional destaca que colocar Deus à frente de suas decisões foi o que lhe garantiu sabedoria, direção e forças para não fraquejar nos momentos de maior cansaço. Pretende agora seguir com sua nova profissão.

Aos 40 anos, com o diploma em mãos, Francisco Jânio sabe que a colação de grau não significa o fim da linha, mas sim o início de um novo capítulo. “Vou correr agora atrás do meu futuro na área da engenharia. Sou muito grato a todos. Dou graças a Deus por tudo”.

As bandejas e o atendimento ao público deram lugar aos cálculos estruturais e ao gerenciamento de obras, mas a humildade e a resiliência continuam as mesmas. Preparado para o mercado de trabalho, ele planeja continuar buscando conhecimento e enfrentando a nova profissão com a mesma coragem que o tirou da estagnação. “Da minha família, sou o primeiro a me formar. Ainda não caiu a ficha. Quando recebi o diploma, vesti a beca, estava ali ao lado da família e dos amigos. É uma grande conquista na minha vida. Saí da roça e hoje sou um engenheiro. Acredito que as pessoas nunca devem desistir do que querem. Peçam a Deus força e coragem e sempre lutem porque vocês conseguem. Todos nós somos capazes de alcançar algo nessa vida”, acrescentou Francisco Jânio, engenheiro civil.

 

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