A Cia. Ortaet de Teatro, de Iguatu, apresenta este final de semana em Fortaleza o espetáculo “Neci” nos teatros José de Alencar e Carlos Câmara. Mais do que uma temporada na capital, a iniciativa representa o encontro entre a produção artística do interior e novos públicos, reafirmando a força de um teatro que, há 27 anos, transforma experiências locais em narrativas universais e socialmente comprometidas.
Fundada em 1999, a Cia. Ortaet consolidou-se como um dos mais importantes coletivos teatrais do interior do Ceará. Ao longo de sua trajetória, o grupo construiu uma identidade artística voltada ao diálogo com questões sociais, utilizando a cena como espaço de reflexão crítica sobre as diversas formas de violência, exclusão e desigualdade. Em cada montagem, o coletivo reafirma seu compromisso com um teatro que ultrapassa o entretenimento e convida o público a refletir sobre a realidade que o cerca.
Em “Neci”, esse compromisso ganha novos contornos ao reunir diferentes olhares femininos em um mesmo processo criativo. O espetáculo nasce inspirado na história da verdadeira Neci, hoje com 87 anos, moradora da comunidade de Barroso II, na zona rural de Quixelô. Foi nesse lugar, onde nasceu a atriz Betânia Lopes, em que surgiu o primeiro contato com a personagem real durante sua infância e adolescência. As memórias da convivência com Neci transformaram-se, anos depois, na semente de uma obra que presta homenagem às mulheres do sertão e àquelas cujas histórias, tantas vezes, permanecem invisibilizadas.
O protagonismo feminino é um dos pilares da montagem. Além de ser inspirado na trajetória de uma mulher sertaneja, o espetáculo tem dramaturgia assinada por Aldenir Martins, algo ainda pouco comum na cena teatral brasileira, historicamente marcada pela predominância masculina na escrita dramatúrgica. A presença de uma dramaturga amplia o olhar sobre as experiências femininas e fortalece a representatividade das mulheres também nos bastidores da criação artística.
Para Aldenir Martins, transformar essas histórias em teatro é também um gesto político e de esperança. “Para mim, enquanto dramaturga, ‘transcriar’ a vida de mulheres marcadas pelo silenciamento a nós destinado historicamente é um ato de esperança. Oportunizar que essas narrativas, sejam elas dolorosas ou não, ganhem corpo, luz e, sobretudo, reverberem para além do palco, é reconhecer a potência dessas existências”, destaca.
Em cena, Betânia Lopes entrega uma interpretação marcada pela maturidade artística construída ao longo de quase três décadas de atuação na Cia. Ortaet. Integrante do grupo desde sua fundação, a atriz desenvolveu uma carreira pautada pelo compromisso com um teatro de pesquisa e forte engajamento social. Em “Neci”, sua atuação estabelece um delicado diálogo entre memória, ficção e realidade, dando corpo a uma personagem que representa muitas mulheres brasileiras atravessadas por silenciamentos, preconceitos e resistências.

Temática
A montagem aborda temas urgentes da sociedade contemporânea, como o machismo, a homofobia, a violência contra as mulheres, a violência contra a pessoa idosa e o etarismo. Sem recorrer ao discurso panfletário, o espetáculo constrói uma narrativa profundamente humana, na qual a poesia e a emoção conduzem o público por reflexões sobre exclusão, afeto, envelhecimento, identidade e dignidade. A história particular de Neci transforma-se, assim, em um espelho das experiências de tantas outras pessoas cujas vidas permanecem invisibilizadas.
Para Betânia Lopes, apresentar o espetáculo em Fortaleza também representa um momento especial em sua trajetória artística. “Fico muito feliz em voltar ao palco de um dos teatros mais belos do Brasil e um dos mais importantes do Ceará, o Theatro José de Alencar, e também de apresentar o espetáculo no Teatro Carlos Câmara, na sala que leva o nome do saudoso Rogério Mesquita. Circular com ‘Neci’ é viver uma soma de energias, trocas e aprendizados. Celebrar minha trajetória de mais de vinte anos de teatro com um espetáculo que fala de mim, mas que reverbera questões de todas as mulheres — especialmente daquelas que envelhecem enfrentando o machismo, o preconceito e as diversas formas de violência — é algo que me engrandece como mulher, artista e cidadã”, afirma.
Resistência
A circulação em Fortaleza também simboliza a resistência da Cia. Ortaet. Mesmo vivendo um momento delicado, com a perda temporária de sua sede, o Galpão Ortaet, o coletivo permanece ativo enquanto aguarda uma resposta da Prefeitura de Iguatu sobre a cessão de um novo espaço. Longe de interromper suas atividades, o grupo segue realizando ações formativas por meio da Olaria – Escola Livre de Teatro e mantendo seu repertório em circulação pelo Ceará.
Essa capacidade de reinventar-se acompanha toda a história da companhia. Permanecer produzindo teatro durante 27 anos no interior do Estado é resultado de uma persistência construída diariamente por artistas que acreditam na cultura como instrumento de transformação social. A chegada de “Neci” aos palcos da capital reafirma essa trajetória e evidencia que o teatro produzido em Iguatu possui qualidade estética, relevância política e profunda conexão com as questões do nosso tempo.
Para o diretor José Filho, a circulação representa mais do que a realização de apresentações em Fortaleza. “Trazer o teatro de Iguatu para os palcos da capital é muito mais do que uma circulação. É reafirmar a força do teatro produzido no interior do Ceará, que resiste e persiste em permanecer vivo apesar das inúmeras adversidades, como a escassez de políticas públicas, de incentivo e de valorização do fazer artístico. A Cia. Ortaet é um grito de resistência que insiste em ecoar nos palcos de Iguatu, do Ceará e do Brasil. ‘Neci’ é a prova viva dessa trajetória.”
Mais do que celebrar seus 27 anos de existência da Ortaet, a circulação de “Neci” reafirma a importância de fortalecer a produção cultural do interior cearense, ampliar os espaços de circulação e garantir que histórias como a da verdadeira Neci continuem ecoando para diferentes públicos. A temporada demonstra que a arte nasce dos territórios, das memórias e das pessoas e que sua maior força está na capacidade de transformar experiências individuais em patrimônio coletivo.



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